sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Uma Vida em 2010

   O ano começou sem muitas expectativas. Meio arrastado, tropeçando aqui e ali, prometendo ser mais um daqueles anos em que se quer viver, mas não se vive. Logo no início do ano, prometi que não faria mais promessas. Há coisa mais deplorável que prometer e não cumprir? Um dia eu "prometi que iria estudar mais", "prometi que voltaria" e "prometi que esperaria alguém voltar", como se fosse me dado o dom de prever o futuro. E de promessa em promessa, comecei a perder a credibilidade das minhas palavras. Então percebi que há uma linha tênue entre uma promessa e um sonho e é necessário saber distingui-los.  Prometi como se sonhasse e sonhei fazendo promessas, quando, na verdade, promessas são certezas e sonhos, possibilidades.
    Fevereiro passou devagar, buscando respostas às perguntas que me atormentavam. As pessoas ao meu redor perdiam-se em teorias e meios para entender as minhas atitudes. Mal sabiam elas que a mais perdida era eu e que cada uma das minhas contradições representava uma tentativa desesperada de me encontrar. É interessante perceber como tudo parece mais exagerado quando estamos na função "expectador" ou quando relembramos um momento difícil. Quando disse que nunca iria superar, que nunca iria voltar ao normal, quando disse que nada mais fazia sentido, era como se aqueles dias estivessem destinados à existir para sempre e não houvesse saídas palpáveis. Obviamente não foi o que aconteceu. Logo no início de Março, eu deixei algo bom escapar. Eu e a minha insistência em afastar as pessoas. Equívocos continuavam a acontecer, uma ou duas vezes a mais que no mês anterior. Eu queria apenas estar, fazer e não esperar as consequências, fechar os olhos e não me importar. Entre um errinho e outro, descobri a estupidez em tentar entrar em uma roupa que não me serve mais ou persistir em abrir uma porta trancada à sete chaves. Às vezes o problema simplesmente não está em você. Abril chegou mais tranquilo, mais adaptável. Percebia o maior peso da minha vida dissipar-se aos poucos diante dos meus olhos. Lá pro meio do mês, pude ter a sorte de viver o mesmo "algo bom" de Março e, desta vez, não deixei que passasse. Depois que se vive algumas (poucas) experiências ruins, fica mais fácil reconhecer quando algo realmente bom nos acontece. A partir daí eu vi tudo mudar: as pessoas me pareciam mais agradáveis, cada minuto era vivido com prazer e, o principal, eu havia finalmente me encontrado. Em Maio vieram alguns problemas, problemas estes que eram sempre resolvidos no máximo dois dias depois. Eu não havia só voltado ao normal: voltei ao normal e voltei melhor. Me dei conta das pessoas incríveis que tive (e tenho) a oportunidade de conviver, pessoas de valor, providas de um coração enorme. Junho e Julho e eu estava mais forte. Notava o choque de comportamento e maturidade que sofri de um ano para o outro (quando se fala da própria vida, as palavras ganham um tom de egoísmo inevitável). Passou a ser tudo mais fácil e menos exagerado, era como se a solução estivesse o tempo todo estampada na minha cara e eu só conseguisse entendê-la um tempo depois. O incômodos foram embora, acompanhando os fantasmas que me atormentavam. A partir de Agosto, tive o prazer de viver os melhores meses da minha vida. Eu aprendi a não reprimir minha personalidade e tive a sorte de estar com pessoas que me deixassem à vontade, pessoas sinceras e facilmente incríveis.
    Setembro, Outubro, Novembro, Dezembro. Aprendi a me divertir sem me sentir prejudicada e vivi cada instante tão intensamente, e descobri tantas sensações novas, e fui tão eu mesma, que cada erro que cometi e cada situação difícil que passei passaram a valer também como contribuintes para que este ano, o ano de 2010, fosse o melhor ano da minha vida. Termino o último dia do meu ano com a certeza de que nada poderia ter sido diferente. Termino o meu ano sabendo que não tenho raiva de ninguém, não devo nada à ninguém e nunca tive a intenção de prejudicar ninguém. Termino o meu ano sendo mais tolerante, menos preocupada e mais segura.
   Não peço e não prometo nada para o ano que vem, que ele venha da maneira que Deus achar que deve vir:
                                                         
                                                             EU ESTOU PRONTA.




sábado, 25 de dezembro de 2010

Desentendido

Me deixa em paz eu não quero olhar na sua cara com todo o meu ressentimento arrependimento de toda a minha mesquinharia antipatia e cara fechada que você insiste em dizer que tenho pressa pra viver eu posso esperar espera que o meu momento chega eu não sou quem você pensa por que não pensa direito e vê o quanto eu me esforço pra que tudo esteja bem o bastante para não se intrometerem em minha vida vai que não preciso dar explicações a ninguém olhe para mim uma última vez eu estou aqui sentada cansada reprimida por um mundo repirimido a minha dor que corta como faca e estaciona na ferida mais profunda da minha vida ninguém poderia entender muito menos você vai porque não quero que veja minhas lágrimas de crocodilo que você tanto odeia vai porque eu sou egoísta demais e nada me satisfaz nisso você tem razão a insatisfação vem de dentro do meu corpo é fúria enclausurada numa prisão de aparências deixa que eu ouço a minha música gosto das coisas que você não gosta reclamo do preconceito admiro o mal-feito o imperfeito me deixa sem jeito e me pede desculpas que tenho a razão mais louca e verdadeira mas você não entende ou entenda a única coisa que me traz alívio e me despecamina é escrever sem sentido enquanto você assiste tv e procura novas teorias pra me rotular como um caso perdido.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Tradução

Sentada sob um muro de memórias,
catando palavras soltas,
inspirando inspiração.
Doces equívocos desequilibram e pertubam a paz:
escancaram a realidade nas entrelinhas.
Desritmando ao som da música entorpecente,
desritmando diante de princípios.
Desimportando.
O tempo passando e levando o medo.
Lavando o corpo, a alma
e mais.
Trazendo alguns amigos na bagagem,
algumas histórias na bagagem
e o ser.
O prazer de ser quem se é.
Sentindo na boca o gosto da existência.
Desviando problemas impostos, adquiridos,
acumulados.
Sem reclamar.
A opinião vinda de fora ecoa um som silencioso
no infinito.
Sentada sob um muro de memórias,
desenrolando os nós,
desmembrando pensamentos.
A alma nua,
balbuciando emoções desconhecidas
num baú de memórias.
A roda gira
enquanto eu sou...

A roda girando,
girando
e eu sendo...

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Com(a) o Medo

  "De repente, ela era uma peça mal encaixada. De repente, ela teria que se encaixar." Um dia a moça acordou e percebeu. Eram sete horas da manhã. O início de um dia que decidiria o final de uma espera. Claro que havia muito o que fazer. Claro que a partir do momento em que ela se levantasse da cama, não teria mais volta. Ela teria que enfrentar. Preparada ou não, disposta ou não, feliz ou não. Deixou-se levar pelo vento e agora sofria as consequências do frio. Tinha medo. O fracasso está há algumas horas dali. O sucesso também. Um pouco de sorte ela tinha e talvez fosse esperta na hora certa. Conhecia alguns dos seus conhecimentos mal acabados. Por todas as expectativas jogadas sob sua cabeça, ela sentia o peso. E doía. Não era o medo do fracasso individual, era o medo do fracasso perante os outros. Ela queria, do fundo da alma, que o mundo enxergasse o que ela secretamente sempre soube. Teria que enfrentar seus demônios na esperança de libertar-se, mesmo sabendo que eles estariam sempre por perto. Infelizmente, seu maior conhecimento não estaria simplesmente exposto na alternativa "A". E quem se importaria?
  De repente, ela era uma peça mal encaixada. De repente, ela teria que se encaixar. E não mais que de repente, lembrou-se das palavras de uma das pessoas mais inteligentes que já conheceu: "Mas, veja bem, isto não é o fim do mundo".

Arrumou-se,
                   fez uma oração.
                                           Que óbvio...
                                                           Não era mesmo o fim do mundo.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Verdademente

Por trás da roupa nova

Por trás do cabelo bonito

Por trás de todo o conhecimento

Por trás das vitrines, bares, lojas, apartamentos.

Por trás do tempero das comidas

Por trás dos diálogos proferidos ao ar

Por trás das leis, por entre os becos,

pairando acima do céu.

No fundo dos mares.

Embaixo do tapete,

escondida no bolso de trás.

Batendo junto ao martelo dos maceneiros,

encolhida no Planalto Central.

Por trás dos bons modos

Por trás das fotos nos porta-retratos

Por trás da bolsa de valores e por trás do carnaval.

Por trás da pornografia

Por trás das folhas de jornal

Por trás da tragédia de todos os dias e

no fundo dos olhos de cada pessoa insignificante:



A V E R D A D E  A C O N T E C E.



sexta-feira, 29 de outubro de 2010

  Os invernos já não são mais os mesmos. Entre livros espalhados e pensamentos paralelos, ela leva sua xícara de chá à boca e imagina como seria se tudo fosse o contrário do que é. Lá fora a chuva fria cai forte. Os pingos atravessam a janela entreaberta e molham seu tapete preferido, que ganhara de presente há dois invernos. Ela respira profundamente enquanto observa a chuva desabar sob seus olhos, como se esperasse que a água lhe ensinasse a saída. A televisão conversa em volume mínimo e luta contra a escuridão da sala. Mais uma vez, a mulher está sozinha. Ela, a xícara, a TV, a janela, a chuva e o tapete. E uma lágrima. Sozinhos. Sua mente cansada divaga. Ela já não tem mais seus vinte e poucos anos. Não é mais a rainha do baile de 82. Encurtaram-se os longos cabelos. A mulher permanece parada. Nem o frio que apertou e o sono que chegara a faziam levantar-se do chão gelado e ir para a cama. Era aquilo: o desgaste dos anos, o cansaço da rotina, o cansaço do cansaço. Era ela: funcionária de repartição pública, mulher sem filhos, fiel com a fé perdida, pessoa sem perspectivas. Ficar inerte parecia-lhe seguro, apenas percebendo seu corpo adormecer, sentindo uma lágrima queimar-lhe a face. E não fazer nada à respeito. Talvez, estando parada,  ela espera transformar-se nos objetos que a consolam. Talvez, estando ali, o vento passaria bruscamente pela janela e levaria o pedaço de um coração que cismava em bater. Mas não. Nada disso acontece.
É a cena chata de um filme em que nada surpreende. A solidão nua e frágil em sua forma mais real.

  Os invernos já não são mais os mesmos.

(e só o que ela precisa é de alguém.)


segunda-feira, 11 de outubro de 2010

.

Finais sempre me interessaram.
Gosto de sua natureza incerta.
A quebra de expectativas,
o resumo,
a parte da história que muda todo o resto.
Finais nunca são totalmente óbvios.
Pagamos pra ver.
O final de um bom texto é sempre melhor que a introdução.
O final de um relacionamento encerra ciclos
da mesma forma que abre portas para novos começos.
Um final pode ser o divisor de águas entre aquilo que você era
e aquilo que passará a ser.
A linha tênue entre o passado e o futuro.
Finais são decisivos.
Dão encanto ao truque do mágico.
É a quebra de expectativas.
A carta na manga.
O pedaço mais gostoso que sempre fica pro final.
Felizes ou trágicos:
nos ensinam.
Talvez seja isso
o que mais me fascina nos finais.
Eles sempre ensinam.
De alguma forma.
Você nunca passa por eles
sem ganhar de presente uma conclusão.
O fim de um jogo,
finais de livros.
O fim da vida.
De nada adianta assistir à um espetáculo
e não ver o final:
é esperando por ele que alguns ainda vivem.
O final põe fim à eternidade.
É imposto e não opcional.
Atrasados ou adiantados.
Tortos,
infelizes
ou inesperados:
os finais estão aí.
E eles sempre vêm.







quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Meu Segredo em Palavras

  Houve um tempo em que o senhor era só nosso. Aquele mesmo tempo em que eu costumava te desenhar no papel com o corpinho de palito. Lembro-me bem de como o senhor sempre se atrasava para me buscar na escola e da maneira como me colocava na cama enquanto eu fingia estar dormindo. Houve um tempo em que eu dormia e acordava com o senhor. Acordava bem cedinho, que era pra te ver arrumando antes de ir trabalhar. Lembro-me ainda das suas risadas escandalosas, do seu espirro de tremer a casa e do movimento que o senhor fazia com seu cinto quando dizia: "olha o coro!". Nunca houve coro. O que sobrou de fato foi a lembrança e a saudade que tenho dos velhos tempos. Saudade das suas musiquinhas prontas. Saudade das piadas bobas. Dos dias no clube. Dos domingos em casa. Do seu cheiro de televisão. Saudade de tudo aquilo que foi e hoje já não é mais. A vida realmente nos surpreendeu, não é verdade? A vida e seus ventos nos levaram à direções opostas. E, de repente, como se a mesa tivesse sido virada bruscamente para baixo, todo o apego transformou-se em meia distância. E quase toda a alegria converteu-se em timidez. E quase todas as piadas bobas perderam a graça. Mas o meu amor ainda é o mesmo. Nada disso me fez perder o carinho pelo senhor. O meu amor ainda é o velho amor de sempre.

Quem me dera poder consertar...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Conexão

 Eu vejo em teus olhos
 um olhar que é só meu,
 o que não destes à mais ninguém
 por só ter encontrado uma que o mereceu.

 Eu vejo em teus olhos
 o que a boca não foi capaz de confessar
 diante à um oceano de falsas verdades:
 "Estou cansado de fingir relevar"

 Eu vejo em teus olhos
 o meu amor misteriosamente refletido
 E deparo-me perguntando:
 se acaso ficasse, como teria sido?

 Eu vejo em teus olhos
 a verdade mergulhada em mentira
 a mágoa escondendo a beleza
 o amor convertido em ira

 Eu vejo eu teus olhos
 todas as razões para lhe amar
 acopladas à todas aquelas
 que impulsionam-me a não lembrar.

 Eu vejo em teus olhos
 a lembrança mal-lembrada,
 o futuro não vivido
 e a história inacabada.

 Eu vejo em teus olhos
 o desejo de me olhar:
 que eu olhasse em teus olhos
 para que pudesse também enxergar.


terça-feira, 31 de agosto de 2010

Mensagem de Júpiter

  Alguns dias me desanimam, às vezes me fazem até pensar em desistir de algumas coisas. Em alguns dias eu vejo com mais clareza sobre a quantidade de pessoas que enganam o próximo, quando, na verdade, enganam à si mesmas. Alguns dos meus dias vem em forma de indignação: o que está acontecendo com todo mundo? Será que ninguém percebe que o mundo virou de cabeça para baixo? Será que alguém pode ver o que eu vejo? Eu vejo regresso em quem se acha esperto demais, eu vejo tristeza nos olhos de quem faz questão de anunciar que tem uma vida invejável, eu vejo o desespero acumulado debaixo do tapete dos super autoconfiantes...
  Alguns dias me despertam a vontade de subir no lugar mais alto que eu pudesse alcançar e gritar: ACOOOOORDEM! Saiam de suas bolhas artificiais, olhem pra outro lugar que não sejam os seus próprios umbigos, libertem-se da hipocrisia, da maldade e de suas capas de gelo!
  Alguns dias me fazem querer ter o poder de mudar o mundo, ou mudar-me dele. Há dias em que penso tanto no quanto tudo poderia ser diferente que até me desloco do que acontece ao meu redor. Para quem acha que eu viajo demais, eu confirmo. Viajo, viajo muito, mudo minha órbita, que é pra não ter que me igualar a quem a realidade já alienou, que é pra não me tornar escrava de mim mesma.
 Alguns dias são como um balde de decepção encharcando o meu corpo. Mas alguns dias são melhores que os outros. Alguns são inesquecíveis. São esses dias que renovam o meu fiapo de esperança. E é por esses dias que eu ainda vivo.

domingo, 22 de agosto de 2010

Aquilo Que Não Era Perfeito

  Entre um copo meio vazio de whisky e uma mente parcialmente embaralhada, percebeu que ela tinha um defeito. Não se tratava de algo muito grave, porém não era tão relevante. Mas ela não seria perfeita? Perfeita de perfeições e defeitos bonitos. Os defeitos bonitos eram bonitos porque a tornavam ainda mais interessante. Mas o feio ele não conhecera até aquele dia. Defeito dele era não ter a coragem suficiente para encarar os defeitos dela e sentar-se em uma mesa de barzinho - se é que aquele lugar poderia ser chamado assim - quando poderia estar com ela, segurando sua mão e dizendo que ficaria tudo bem. Dizendo também que era apenas um defeito feio em meio à tantos outros bonitos. Um defeito feio que tinha solução: ele sabia disso e a faria acreditar na mesma coisa. Terminaria o assunto dizendo que pouco importava, que ele a queria para sempre, independente de qualquer defeito feio.
Mas não.
  Ele estava ali, sentado em uma mesa pra um, incapaz. Ele e mais uma dose de whisky que acabara de chegar. Sozinhos. Tirou o telefone do bolso e procurou em desespero o número dela. Ele sabia que se ligasse, ela não iria gostar. Já passavam das duas da manhã, ela certamente estaria dormindo. Além do mais, ela odiava vê-lo bebendo. Odiava ainda mais sua voz embolada de bebedeira. Ainda assim, ele apertou a tecla de discagem e esperou (im)pacientemente o toque repetitivo da chamada ser calado pela voz dela. O barulho parou, mas não havia voz alguma. Talvez tenha ouvido um choro baixinho, mas achou que era coisa de sua cabeça. Na verdade, ela escutava sem dizer uma palavra.

— Não importa. Você é perfeita. - a voz saiu engasgada, porém decidida.
Desligou.
 
  Sentada na cama, com os olhos cheios d'água e o celular ainda na mão, ela entendera. Sabia que ele estava bêbado. Sabia que estava tarde. Sabia que ele fora um covarde nos dias anteriores. Mas ele conseguiu fazê-la entender. Enquanto ela transbordava de emoção e seus dedos retornavam a chamada, ele desligava seu celular e levantava-se da cadeira, pensando tê-la perdido.
 
Este telefone encontra-se fora da área de cobertura ou desligado.

Encolheu-se na cama e embrulhou-se até a cabeça.
"Eu o perdi", falou baixinho para as cobertas.

  E perderam-se juntos.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Nada.

  Ser criticada por ser o que sou. Mas é tão irônico ser assim, é tão difícil tentar desafiar as ideias prontas de pessoas tão acostumadas com o comum, tão acomodadas à seus conceitos formados e vidinhas egoístas.. Eu olho ao meu redor e me sinto sufocada. Tornou-se extremamente difícil tentar manter-me autêntica e fiel à minha personalidade. Por mais que eu tente, percebi que não adianta gastar palavras para fazer com que pessoas pobres de espírito entendam que esse é o meu jeito, a minha condição. O que é crescer, afinal? Qual é o conceito de vocês para a palavra amadurecimento? Me recuso a acreditar que preciso me manter séria, sempre atenta às situações, sempre pensando no que os outros estão pensando à meu respeito. Ser madura é isso? Não gostar de rir, fazer piada quase nunca - e se for contar, não vá dar mancada, conte algo inteligente! -. Também não pode errar, arrepender, equivocar. Cuidado também com o bom humor excessivo ou comportamento animado: isso é sinal de infantilidade. Se você é baixinho e dizem que sua voz é engraçada... pode esquecer, já está instantâneamente reprovado no teste de maturidade!
  Não tentem me fazer ser o inverso do que sou hoje. Podem zoar, podem humilhar, podem escrachar. Podem selecionar os piores defeitos do mundo e despejar em minhas costas. Eu não vou mudar por vocês. Eu não vou desistir por vocês.
  Se meu lado mau falasse (acredite, eu tenho um!), ele desejaria que todos vocês morressem e queimassem no inferno. Acontece que prefiro dar créditos aos 70% de bondade existentes em mim. E se for pra desejar algo à vocês, eu não desejo nada. Indiferença. Indiferente.

A mágoa eu supero.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Cumprimente!

  Imagine a cena: você está andando na rua e percebe que aquele amigo que não via há anos, um amigo não muito próximo, divide a mesma calçada que a sua, porém em direção oposta. Ele ainda não te viu, mas você sabe que a qualquer momento passará do seu lado e, se lembrar que vocês foram colegas no primário, irá te cumprimentar e perguntar como anda a vida ou a família. A partir daí você tem três possibilidades de ação: você poderia tomar a iniciativa de acenar e cumprimentá-lo, mesmo correndo o risco de não ser reconhecido; poderia também abaixar a cabeça e atravessar a rua, fingindo que sequer reparara na presença do amigo; ou poderia passar tranquilamente, dando umas olhadinhas despistadas, esperando que ele note que você era aquele moleque da escola que jogava vídeo-game e levava frutas no recreio. E então, o que você faria? Uniria-se à indiferença ou à boa educação?
  Aí vai o meu conselho para os que pretendem seguí-lo: CUMPRIMENTE! Um simples 'oi', um tapinha nas costas ou um sorriso aberto: não importa a forma como você aborda uma pessoa, apenas mostre que você se importa, mostre que percebeu sim e não vai deixar passar! A vida é tão imprevisível que, sem se dar conta, você pode estar cumprimentando alguém pela última vez, trocando as últimas palavras com uma pessoa que partiria em uma viagem sem volta logo no dia seguinte... Uma pequena atitude toma grandes proporções quando levamos em consideração a vulnerabilidade da vida. Por isso, cumprimente! Não se deixe levar pela mania que a realidade tem de nos deixar cegos para os pequenos detalhes...Independentemente da sua timidez ou de não ser correspondido e ficar em um vácuo sem fim: não deixe de cumprimentar! Seu gesto de educação e consideração reflete na alma das pessoas que se importam e as fazem bem pelo resto do dia! Nunca dependa da iniciativa dos outros para tomar a sua...
  E é como Renato Russo um dia cantou: "É preciso amar (cumprimentar) as pessoas como se não houvesse o amanhã..."

=)

sábado, 31 de julho de 2010

Entre Meias Verdades

   Se eu saio, saio demais. Se fico em casa, por que só fico no meu quarto? Se estou sem estudar, eu deveria tomar vergonha e pegar meus cadernos. Se estudo muito, eu tenho que dar uma trégua e descansar. Se descanso, estou muito à toa. Se durmo cedo, eu provavelmente estou doente. Se vou dormir tarde, é vício em internet. Se tento conversar, estou falando demais. Se fico quieta, é porque sou indiferente e não ligo a mínima pros problemas dos outros. Se quero ver meus amigos, significa que só penso neles. Se quero ficar sozinha, sou anti social. Se eu abraço, tá calor demais. Se não abraço, sou grossa e insensível. Se penso em me divertir, estou incomodando e dando trabalho. Se não penso em nada, é porque eu deveria agir, sou muito morta, infeliz. Se fico chateada, certamente estou me fazendo de vítima. Se não fico, é porque sou fria o suficiente pra não me comover...
   "Cadê você, menina? Onde está você?"  Eu estou aqui. A mesma de sempre. Eu sou a mesma pessoa que fazia penteados malucos em seu cabelo e que chorava por um vestido de quadrilha. Eu sou a mesma pessoa que brincava o dia inteiro e tinha medo de dormir sozinha. Eu sou a mesma que gostava de imitar as danças da minha irmã e tinha uma coleção de revistinhas Turma da Mônica. Eu sou a mesma que fazia poemas em papel chamex e acordava todos os dias sonâmbula no meio da noite. O tempo passou meio desconcertado, meio sem jeito, mas eu sempre estive aqui. A única diferença agora é que não me interesso por todas as mesmas coisas, não visto as mesmas roupas e não penso do mesmo jeito. Eu cresci. E, ao contrário do que você pensa agora, eu não me tornei egoísta. Que bobeira pensar assim... Egoísta é aquele que é egoísta o bastante pra apontar o egoísmo nos olhos dos outros. E, se quer saber, você não sabe o quanto me importo...

(Ah, se você soubesse o quanto eu te amo...!)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Sinal de Alerta

   Foi difícil quando o vi pela primeira vez. Toda aquela fumaça impedia a minha visão. Foi preciso comprimir meus olhos numa linha apertada para enxergar o vulto que vinha em minha direção. O cabelo curto e as curvas grosseiras não me deixaram duvidar de que se tratava de um homem. Mas por que ele estaria ali? E por que caminhava até a mim? Não era nada disso que eu deveria questionar. A pergunta certa é: como ele também sobreviveu? Era muito fácil deduzir o porquê de ele estar avançando até a mim, porque ele provavelmente também é uma alma perdida, ele também não sabe o que fazer, ele também enfrentou o maior pesadelo de sua vida. O sol queimava acima de nossas cabeças e o ar seco e parado entrava com dificuldade em meus pulmões.
   A Destruição havia se concretizado em um dia cotidiano de meio de semana, logo quando pessoas em todo o mundo saiam para trabalhar, levavam suas crianças à escola ou tomavam seus cafés da manhã. A Destruição veio sem avisos prévios, apenas veio. Veio furiosa e de uma magnitude tão grande que só quem presenciou, só quem sentiu na boca o gosto da poeira e do asfalto, poderia descrever com exatidão.
   Eu era a sobrevivente, eu e este rapaz misterioso que agora pára em minha frente e me olha como se eu fosse a resposta para todas as suas perguntas.
  — Você sobreviveu. - ele afirma o óbvio - Não posso acreditar que você também está aqui. E como poderia? Por todos estes anos caminhando sozinho, minhas esperanças de que pudesse existir mais alguém eram praticamente nulas.
  — As minhas também. - respondi meio sem graça, após notar o quanto ele era bonito à sua maneira, e tinha traços marcantes, e tinha a voz decidida, e tinha... Interrompi meus pensamentos e procurei afastá-los para concentrar-me em meu primeiro diálogo após a Destruição.
  — Como você sobreviveu? - ele me perguntou aquilo que deveria ter sido perguntado por mim.
  — Eu ouvi um sinal. Um sinal de alerta. Primeiro pensei que estivesse ficando louca... essas coisas não existem. - esperei que ele me perguntasse que tipo de sinal era esse, mas ouvi o inesperado.
  — Eu também ouvi. - respondeu pausadamente, como se tivesse acabado de receber algum tipo de revelação - Acha que fomos os únicos?
Como eu poderia saber?
  — Não há como saber, a não ser que procuremos. O que sei é que o mundo é grande demais para apenas duas pessoas. - olhei em seus olhos, como se pudesse fazê-lo entender de que esta era minha única certeza no momento.
  — Você tem razão - entendeu ele - Se estamos vivos, não acredito que seja por acaso. Não acredito que o sinal tenha sido por acaso. Se estamos aqui, o justo é nos unirmos para procurar outras vidas que, provavelmente, devem estar tão perdidas quanto estávamos antes de nos encontrarmos. E, à propósito, meu nome é Marcos. - acrescentou, estendendo a mão para que eu o cumprimentasse.
  — Beatriz. - dei um sorriso de canto enquanto apertava a mão dele por mais tempo que o previsto, como se aquele gesto marcasse o início daquilo que seria nossa união, nossa equipe, o início de uma jornada pelo mundo à procura de vida humana: os Buscadores da Vida.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

TOP FIVE!

A palavra do dia é irritação. Estou irritada. Qualquer atitude irrelevante realizada por qualquer pessoa (até por mim) me deixa irritada. Estou mal humorada, rabujenta, carrancuda, velha, reclamona, impaciente, mala e todos os outros adjetivos irritantes que possam existir. E é com essa paz de espírito radiante e essa vontade de sair correndo, pulando e saltitando em um campo repleto de flores coloridas, que dou início ao meu segundo TOP FIVE sobre coisas irritantes e que me dão vontade de vomitar.

5º lugar: De uns tempos pra cá surgiu um tal de "famílias" do orkut. É o seguinte: você tem um grupo de amigos próximos e resolve criar um "sobrenome" para os membros do grupinho, fazendo com que cada indivíduo tenha que utilizar o sobrenome em seus respectivos orkuts. Hahahaha, só pra rir meeeeesmo. Me responde uma coisa: por um acaso essa é sua família? Não, sua família provavelmente está na sua casa. "Ah, mas eu considero meus amigos como minha família". Tudo bem que você os considera assim, mas eles SÃO? Eles batizaram você? É seu pai, sua mãe? Não, né? Então pronto. Deixa de antipatia e, se for pra colocar sobrenome, coloca o seu de nascença. Depois você vai e manda um depoimento pra cada um de seus amigos falando o quanto os considera como família. Simples :)

4º lugar: O quarto lugar de hoje vai para as pessoas que ultimamente andaram usando algumas palavrinhas antipáticas em seus perfis no orkut ou conversinhas otimistas. Eis as palavras: POSITIVIDADE, ENERGIA e VIBRAÇÃO. Separadas, podem até passar a idéia de que são inofensivas, mas não se deixe iludir, meu bom amigo... Observe a junção destas palavras em duas frases e tire você mesmo suas próprias conclusões:

Orkut
Quem sou eu: "Tenha positividade, deixe as energias positivas fluírem e você atrairá só boas vibrações"
(bandeirinha do reggae embaixo)

Pra mim existem duas opções: Ou a pessoa faz uso de substâncias ilícitas e dedica seu tempo livre à produção de erva, ooooou é filho de Bob Marley.

Outro exemplo é o trecho da letra de uma música de Forfun:
"Perto de toda positividade, a onda boa se propaga no ar"

(MOOORRE.)

3° lugar: o terceiro lugar tá bad. TÁ BAD?! Que gíria é essa, senhor? Eu tava tão feliz com minha raivinha restrita por "é nui", "é mato" e "é osso"! Tem "tá bad" também? Você encontra um amigo na rua que não conversa há tempos e, gentilmente, pergunta ao indivíduo como ele está. Eis o que o meliante responde: "Ah... to bad, viu!" Qual a sua primeira reação? Claro que é deixar a pessoa no vácuo e correr desesperadamente por quatro quarteirões, depois pegar uma 38 e se matar. Óbvio!

2° lugar: Eu sei que agora tudo é Twitter e sei também que você basicamente vive com o único objetivo de contar cada passo seu no Twitter, porque, afinal, não iria deixar seus followers roendo as unhas de ansiedade por não saber o que aconteceu em sua aula de academia. Fique à vontade pra interagir, mandar mensagens instantâneas e dedicar sua vida ao Twitter, mas, por favor, quando for dizer que vai mexer em seu Twitter, não fala que vai "DAR UMA TWITTADA". Pode falar que você tá postando, colocando ou escrevendo algo em seu twitter, mas não vem com essa de que tava "twittando". Essa palavra não provoca nenhuma reação alérgica em você? Não te dá vontade de cavar um buraco bem fundo e entrar nele? Se isso não te afeta também, ou você não é normal ou eu e meu primo Felipe temos algum tipo de distúrbio da antipatia.

Conversinha casual no msn:

Cleidson diz:
eaaae marcinha, tá fazendo o que aí?
Marcinha 100% eu *flaah, te amoo!* diz:
aaah, clei, to aqui fazendo o de sempre... twittando, hahaha.
Marcinha 100% eu *flaah, te amoo!* diz:
hahaha (:
Cleidson diz:

* Cleidson parece estar offline. As mensagens serão entregues quando esse contato entrar *

1° lugar: O primeiríssimo lugar vai para os adoradores E odiadores radicais das bandas Cine, Restart e todas as suas derivações.

Para os que amam: quê isso, meu filho? Como você é capaz de gostar de uma porcaria dessas? Tudo bem que eles usam roupas ridículas e tem um comportamento ridículo, mas se pelo menos eles SOUBESSEM cantar...! Eles não cantam! EU canto melhor que eles! Ah, que saudade dos emos sensíveis com roupas pretas e letras melosas de outrora...

Para os que odeiam radicalmente: gente, vocês não precisam falar que odeiam esses "cantores" 24 horas ao dia... vocês não precisam usar camisetas "morte às cores"... vocês não precisam fazer vídeos revoltados sobre o quanto o ódio por tais bandas percorrem suas veias e te dão vontade de matar as 3 primeiras pessoas que passarem por vocês! Vocês tem a OBRIGAÇÃO de não gostar, simplesmente porque é RIDÍCULO. Não se sintam superiores por terem o bom senso de depreciar tais músicas! Você odeia Cine, odeia Restart, odeia Justin Bieber e é isso. Seja feliz e assunto encerrado.


E, pra finalizar, desejo à você toda a positividade do mundo e espero que não fique bad com os problemas da vida... se tiver mesmo se sentindo sozinho, entra pra minha família que lá a gente escuta Restart o dia todo pra ninguém ficar desanimado, ok? Ou quem sabe você pode dar uma twittada pra desabafar... :)

sábado, 10 de julho de 2010

Sentença

E, assim, do nada,
o semblante torna-se triste,
o traço enrigece,
gasta-se o gosto.
Em meio ao espetáculo, cala-se o músico.
A música,
a fala,
a foto
e o resto.
O rosto estampado em todas as paredes,
parado,
distante,
exposto.
Espinhos espalhados castigam o corpo.
Caminhos alternativos surgem e se chocam em contra-mão.
Mãos sujas,
culpadas,
trêmulas.
Tramas sem direção divagam a procura de respostas.
Respingos se espalham e atingem o espelho.
Exibe-se o reflexo pálido,
cansado,
mudo.
Mudam-se as vítimas:
o assassino é o mesmo.
Meses passam em piloto automático.
Automóveis correm em direção contrária.
O errado torna-se vício.
O crime, sobrevivência.
Erram-se os dias,
somem as chances.
Faltam as palavras.


sexta-feira, 25 de junho de 2010

Algo Mais

Que me perdoem os acomodados, mas busco pela intensidade. Quero a vida em sua forma mais profunda. E que nada venha pela metade: meios-amigos, meios-amores, experiências ao meio, meios termos. Eu quero o todo, ir além do que eu possa alcançar. A felicidade verdadeira não é sobre o quanto você pode estar bem, é sobre o quanto você pode ser intenso.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Triste Com um Segredo

  Ela passava três quartos de seu tempo distribuindo sorrisos falsos, falando coisas interessantes, certificando-se de que todos estavam apreciando sua presença e esforçando-se pela felicidade dos outros. Tudo para camulflar aquilo que, se revelado, poderia expô-la agressivamente. Ela tinha um segredo. O mantinha escondido há tanto tempo que não sabia se poderia pronunciá-lo, mas ele continuava vivo e implorava-lhe pela liberdade.
  No resto do seu tempo livre, ela corria.
Corria para esquecer-se de que tinha um segredo, ou talvez para escondê-lo de si. Corria para fazer a dor sumir e acelerava mais a cada vez que seu pensamento insistia em dominar suas pernas. Enquanto corria contra o vento gelado, escorriam lágrimas de seu olho que secavam rápido, não havendo tempo para notá-las. Ela corria e corria e fugia da vida, das pessoas, de si mesma. As árvores balançavam inquietas, imitando o mesmo movimento dos cabelos da menina, que dançavam soltos.
  Enquanto corria, encontrava sua redenção, sua válvula de escape. Naquele momento, ela era todo o desespero, a liberdade, o torpor, a fuga, os sentimentos e sentidos. Era a verdade escancarada em meio à pessoas que viviam de omissão. Era a menina anunciando um segredo. Era o segredo que libertava-se de uma menina.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Sem Destinatário

O dia arrastava-se preguiçosamente. Ela estava só e já havia se cansado de ler o livro que há tempos não conseguia terminar. Enquanto mastigava qualquer besteira industrializada, corria os olhos em busca de algum papel. Foi quando viu um pedaço de folha semi-recortada, e antes que pudesse pensar em desenhar barcos ou assinar seu nome repetidas vezes, ela escreveu palavras que saíram apressadas:

"Não é uma questão de saber por quanto tempo continuaremos juntos. Talvez amanhã encontremos motivos para que não dê certo, ou talvez sentiremos como se tudo fosse pra sempre. Mas não dizem por aí que o pra sempre sempre acaba? E se ele sempre acaba, por que não aproveitar o tempo que nos é dado? Eu quero o tempo necessário para que você possa levar algo bom de mim, algo que você realmente tenha aprendido e que te faça ser alguém melhor do que já é. E que fiquem as conversas, os beijos, os dias felizes e os sorrisos eternizados em seus momentos. Ninguém pode nos roubar o que já vivemos, e essa é a única certeza que podemos ter. Então iremos rumo ao pra sempre, mesmo que ele possa não existir. Seguiremos juntos, enquanto estivermos juntos para seguir. Pouco importa a eternidade se o importante mesmo é o caminho que nos leva a ela. Vamos nos fazendo felizes enquanto o tempo nos permitir..."

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O Garoto que Nunca Existiu

   Ele é acostumado à sua rotina. Sai de casa raramente, quase não tem amigos, e agora está ali, sentado na penúltima fileira de carteiras da sala e olhando fixamente para o relógio pendurado na parede. A voz ritmada da professora e as risadas escandalosas dos colegas resumiam-se em ecos distantes em sua cabeça. Vez ou outra sentia uma bolinha de papel tocar suas costas, mas o único movimento imediato que realiza é debruçar-se sobre a mesa com o rosto escondido entre os braços. Ele não está presente ali, afinal. Se fosse atingido por uma faca neste momento, ele permaneceria no piloto automático. Sua vida consistia apenas em existir, ser um coadjuvante tímido na novela dos principais. Destinado ao fracasso e ponto final. Algumas pessoas nascem para morrer, era como costumava pensar quando ainda lhe sobrava ânimo para refletir sobre sua vida inútil.
   A presença da morte era tão perceptível que poderia ser consumida e percorria cada veia de seu corpo na medida em que respirava suas últimas doses de oxigênio. Hoje ele iria libertar-se, como já havia planejado. Seria às nove, logo após a refeição noturna (comeria como se fosse a única sensação de prazer que sentira em toda a sua vida), o último desejo de um rapaz reprimido.
Seus colegas só notariam uma semana depois, quando sentissem falta de alguém para atirarem algumas bolinhas de papel, mas não ficariam tristes por muito tempo: era só aquele garoto que mal sabiam o nome...O garoto que nunca existiu.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Sobre Micaretas e Afins

   É surpreendente o fato de como as letras de uma música de axé podem ser inspiradoras. Sim, verdadeiros poemas líricos. Mais revigorante que apreciar a melodia e seu ritmo contagiante é pagar trezentos reais para assistir à um espetáculo de axé repleto de pessoas bonitas e educadas (of course).
   Dia desses fui a um desses eventos, o Pub Folia. Contrariando minha natureza anti-psiricana, decidi que só poderia ter uma opinião concreta a respeito de micaretas se estivesse presente em uma delas. Poderia até ser divertido, afinal.
Logo quando cheguei e inseri-me àquele formigueiro humano, senti uma mão puxar-me pelo braço e a seguinte frase: "Gata, vem cá, me dá um beijo". O que este ser esperava que eu respondesse? "Claro, querido estranho, não te conheço, mas por mim tudo bem!" Me poupe, né? Quinze minutos de festa e era necessário andar com a mão cobrindo a boca.
Depois de escutar de um desconhecido que eu era a pessoa mais desanimada do Pub Folia, percebi que nunca havia me sentido tão deslocada em um lugar como estava naquele momento, primeiro porque não sabia dançar UMA música (apesar de que aprender a cantá-las era ridiculamente fácil), depois porque não suportava aquelas pessoas roçando umas nas outras e pulando como se pudessem alcançar a Lua.
Nunca havia visto tanto mafioso, barrerado, favelado, bêbado e bandido espremidos em um lugar só. E muita, muita gente absurdamente feia. A impressão que tive foi a de que todos aqueles cidadãos aguardaram em suas casas ansiosamente (e na seca) pelo grande dia em que pudessem extravasar. Quando digo extravasar, me refiro a descarregar energias dignas de cachorros no cio e a partir daí, beijar a boca nojenta de qualquer ser que se mova ou rasteje. Lá estava o antro dos desesperados, das pessoas que não conseguiam pegar nem resfriado em dias normais e corriqueiros.
E o que diabos são aquelas danças? Passinhos milimetricamente ensaiados, mão na cabeça, dois pulinhos pro lado, mão no joelho e uma abaixadinha... Sem contar os cantores que rebolavam e rebolavam como se estivessem entre os dez mais sexys e disputados da Forbes, e as mulheres que esgoelavam como se a qualquer momento pudessem ter um ataque epilético (¬¬').
   Vale mencionar que fui dormir com um zumbido insistente na orelha que repassava os refrões das músicas repetidas vezes e não parava nem com uma travesseirada na cabeça.
Ao final da minha aventura, pude concluir três valiosos conselhos a respeito do Barrero-Folia e eventos semelhantes: 1º- Faça o máximo para não ir a uma dessas micaretas; 2º- Se for pirraçar e insistir em ir (como eu fiz), arranje dinheiro e vá de camarote. 3º- Assim que ouvir o cantor gritar 'QUERO TODO MUNDO INDO PRA DIREITA', não vá pra direita. Nem pra esquerda. Fuja.
   E é isso aí. Bota a mão na cabeça que vai começar o rebolation, tion...

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Trégua, por favor!

Parem, parem de me ligar! Eu escuto as mesmas vozes em sotaques carregados de São Paulo e Rio de Janeiro every fuc**** day! Sério, posso fazer uma lista de nomes dessas pessoas chatas e inconvenientes que insistem em ligar pra cá 345 vezes ao dia, e o pior é que ninguém da minha casa é CAPAZ de mover a mão pra atender o raio do telefone, mesmo que ele esteja à dez centímetros de distância. Sobra pra mim: após o quinto 'trrrrrrin' sem tréguas, sou vencida pelo cansaço e obrigada a atender. Quando atendo e ouço aquela vozinha enjoada, me vem um arrepio da cabeça ao dedo do pé. Será que não percebem que minha mãe não quer assinar a porcaria do jornal, mesmo que venha com 15% de desconto e 3 DVD's do Padre Marcelo Rossi? Não repararam que minha irmã nunca está em casa (mesmo estando) e eu mando ligarem mais tarde na esperança de não ligarem nunca mais? E tem mais: meu irmão e meu pai não moram mais aqui, porque insistem na tese de que por coincidência eles estarão ao lado do telefone daqui de casa exatamente quando vocês ligarem? Mesmo se isso acontecer, vocês acham mesmo que eles iriam se interessar pelos seus extraordinários planos Oi Conta Total ou cartões Visa e Mastercard? Como se não bastasse, vocês ainda são capazes de errar os nomes, chamando Amanda Rocha de Amanda Roxa (é, a cor) e Alberto Menezes de Alberto Mendes...Eu tento não perder a paciência com vocês, mas tá ficando cada vez mais difícil! Da próxima vez vou dizer algo do tipo: "Eu não comentei com vocês? Minha irmã/pai/mãe/irmão resolveu escalar o Monte Everest e só volta daqui a dois anos!"
Assistentes de Telemarketing, funcionários da Oi, voluntários da Fundação Apae, vendedores de jornal, eu sei que vocês gostam muito de ouvir minha voz, mas por favor, parem de me ligar!
É tudo muito revoltante e acredito que os...droga. O telefone tá tocando.

domingo, 25 de abril de 2010

Por Educação

Por ela ser educada, o trataria muito bem sempre que o visse. Mostraria-lhe um sorriso e falaria algumas besteiras sobre o tempo. Talvez até o convidasse para entrar, mesmo sabendo que ele recusaria. Quando percebesse que o assunto ia-se embora, perguntaria sobre a família ou contaria um caso cotidiano, sem maldades. Maldosa estaria a mente dele, que, desde o primeiro momento, pensaria: 'ela ainda sofre por mim'. Então ele retribuiria toda a gentileza dela com uma pose convencida e um sorriso de quem conta vantagem. É claro que ela saberia que seria mal interpretada, mas não ligaria: o que ele pensa seria só o que ele pensa, e mais nada. Por educação, ela levaria a conversa até o momento em que ele olhasse no relógio e dissesse que havia um compromisso importantíssimo e que precisaria ir embora. Naquele momento ela olharia em direção aos olhos dele e pensaria sobre o quanto uma pessoa pode mudar a ponto de esquecer-se de quem é. Ele adivinharia os pensamentos dela e vagamente observaria a calçada, sem dizer nada. Depois de se despedirem, ela diria para que ele não sumisse, não porque gostaria que ele reaparecesse do nada em sua vida, ou porque gostasse dele, ou porque o quisesse. Não. Ela falaria por educação. Então ela voltaria pra casa sem observá-lo dobrar a esquina e subiria as escadas em passos firmes. Deitaria no sofá e pegaria um livro qualquer para ler, sem dramas. Ficaria ali, entre uma página e outra, correndo os olhos sobre as letras sem prestar atenção nelas, desejando secretamente nunca mais ter que encontrá-lo.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Em Linhas Tortas

Coleciono o que é errado descartável esquisito mas ninguém sabe meu errado é o certo meio torto meio acertado pego minha bolsa dinheiro e sapato jogo tudo pro alto que é pra não ter como voltar e esquecer o que é lembrar de ir devagar menina devagar vai com calma acelerada e me procure quando pisar os pés no chão com o coração apertado e cansado de tanto dar voltas no mesmo círculo preciso sair porque não me satisfaço com trocado tudo trocado o mundo faz mais sentido de cabeça pra baixo eu não quero ninguém pra me impedir de estar onde eu quero ser dona dos meus impulsos amiga dos atos impensados e me deixa viver me deixa que não quero o mesmo que você quero a vida despida despejando o que quiser em mim o tempo que for o tempo necessário pra voar o necessário e só parar quando tiver que parar para com isso vem cá deixa de bobagem que a bobagem aqui é o que você vive e não o que você é de verdade que eu estou presa infelizmente não amo com o coração amo com a mente não mente pra mim me diz a verdade todo mundo é de todo mundo deixa de crueldade você é o nada que não me resta e meu castelo de gelo só tem espaço pra mim até que me provem o contrário.

domingo, 28 de março de 2010

Conselho

   Disseram-me pra eu ter paciência. Disseram que eu deveria me desacelerar e pensar mais antes de agir. Disseram que minhas escolhas, independentemente de estarem certas ou erradas, sempre me trariam consequências. Disseram-me também que não é pecado não gostar de ninguém ou esquecer-se de como é que se gosta. Disseram que amor à primeira vista não existe, nem à segunda ou à terceira. Amor de verdade é aquele que só aparece depois de um tempo. Disseram-me para eu parar com essa mania inconsciente de magoar as pessoas ou fazê-las acreditar em algo que, na verdade, nunca existiu. Disseram para eu me colocar no lugar dos outros e ao mesmo tempo colocar-me em primeiro lugar. "Acorda pro mundo!", foi o que disseram. Disseram que só serei feliz quando encontrar o amor da minha vida. Mas e se eu dissesse que isso não seria o bastante pra me sentir satisfeita? Disseram que devo medir minhas palavras na frente dos outros e fazer de tudo para que não tenham uma imagem equivocada a meu respeito. E quem disse? Disseram-me que impulsividade é sinônimo de infantilidade e arrependimento é sinônimo de fraqueza. Disseram que gente responsável é gente conservadora, e que mulher direita é aquela que não sai de casa e namora quase nada. Disseram-me que a vida só começa após os dezoito. Disseram também que não deveria escrever o que penso, porque formas de pensar podem ser comprometedoras e mudam de um dia para o outro. E em meio a tanto conselho que recebo, o que é que vocês realmente querem me dizer?

segunda-feira, 22 de março de 2010

Perfect Strangers - Parte 2/Final

   As diferenças entre eles aguçavam-lhes a curiosidade e aumentavam suas expectativas. O som de batidas e gritos entusiasmados vindos da porta foram totalmente camuflados com as batidas descompassadas do coração de Marina. De repente ela esqueceu-se das vezes em que havia dito que não queria se envolver, ou que ainda não estava pronta, ou que precisava do tempo e momento adequados. Ela só queria trazê-lo para si, abraçá-lo, beijá-lo, aventurar-se num abismo de precipitações e perder completamente a pouca noção de tempo que ainda lhe restava. Porém, o medo de agir não permitiu que movesse um só membro. Então ela esperou.
   Víctor surpreendeu-se ao perceber que chegar perto de Marina poderia ser comparado a andar de carro com os olhos vendados: difícil, mas por alguma razão, instigante. Enquanto se aproximava dela, podia sentir seu sangue correr em adrenalina e suas veias pulsarem no mesmo ritmo. Ele jamais havia estado tão vivo. O irônico nisso é que sua confiança sempre o fez sentir o dono do mundo, mas, naquele quarto, ele entendeu que o seu mundo era um lugar onde ele nunca havia estado e estava bem ali, na sua frente.
As mãos entrelaçaram-se cuidadosamente, experimentando devagar a sensação de um primeiro contato. Vez ou outra suas pupilas insistiam em fitar o chão, mas agora era tarde pra qualquer demonstração de timidez. Os braços vieram depois, envolvendo os corpos em uma cápsula protetora. As respirações misturavam-se, e o hálito de menta em uma boca semi-aberta ia em direção a lábios pintados de batom. Os olhos fechavam-se enquanto esperavam um turbilhão de sensações. Então, o Beijo. O beijo que fazia o pensamento rodar. A partir dali, tudo aquilo que não fizesse parte da conexão entre os dois não lhes interessava mais. Eram Víctor e Marina. E mais ninguém. Se o mundo explodisse naquele momento, eles não seriam capazes de sentir nada além do torpor que aquele beijo lhes proporcionava.
   “Deixe que eles chamem por nós, eu já não escuto mais nada”, foi a última coisa que ela ouviu antes de perceber que havia encontrado aquele que, meio século depois, estaria junto dela com o coração debruçado na sacada de seu apartamento observando o pôr-do-sol. De mãos dadas.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Perfect Strangers - Parte 1

   Eles estavam sozinhos em um quarto vazio. Encontravam-se tão entretidos em olhares que as vozes e batidas na porta vindas do lado de fora passaram a diminuir gradualmente. Uma vassoura encostada no canto direito da porta e um quadro velho e mal colocado na parede insistiam na tese de que ali seria o pior local para se apaixonar. Mas ali estavam os dois, imóveis, desafiando as leis do bom-senso e da falta de coragem.
   Víctor era um jovem esperto, agitado e levemente imaturo. Meio alto, meio baixo, as mãos pequenas e os braços largos, postura confiante e olhar perdido. Seu cabelo preto e propositalmente bagunçado contrastava em sua pele branca. Seu rosto desenhava-se em traços marcantes e bem definidos, que o permitiam mentir tranquilamente sobre a sua idade se deixasse a barba por fazer ou tirasse o brinco prata da orelha esquerda. Procurava deixar os braços nus em uma camiseta regata, a fim de expor os músculos recém-ganhados da academia. Completara 17 anos duas noites atrás e mentia ao contar aos amigos que havia conseguido oito mulheres na noite do seu aniversário. Intolerante nas horas vagas e engraçado na maior parte do tempo. Não estudava muito ou tirava notas exemplares, mas sempre conseguia passar de ano após duas ou três recuperações. Ia a festas, bebia cerveja e freqüentemente conquistava as meninas ingênuas da oitava série. Nunca se apaixonara de verdade. Até conhecer Marina.
   Ela era tímida, distraída e engraçada até certo ponto. Estatura baixa em relação às amigas, olhos pequenos e amendoados, dedos longos em mãos finas. Nem gorda e nem magra, meio chata e meio legal. Seu cabelo escuro e ondulado caía sob os ombros estreitos e seguiam um caminho até o meio de sua blusa amarela. Um cinto marrom contornava cuidadosamente seu quadril e moldava seu jeans escuro que fora comprado na véspera. Tinha aversão por garotos de blusa regata na mesma proporção em que não suportava felinos e homens de sunga branca. Não saía muito de casa e estudava com o objetivo de mudar da sua cidade o mais rápido possível. Carregava em seu bolso um coração inseguro e um plano esquematizado para o futuro.      Marina tinha 16 anos, e há uns meses saíra de um namoro precocemente longo. Desde então interessar-se por alguém estaria em última prioridade.
Até perceber a intensidade na qual os olhos de Víctor fitavam suas pupilas e a facilidade com que os mesmos atravessavam sua alma.




Continua...

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Voo Particular

   Eram cinco e meia em uma tarde de sábado e o sol começava a se pôr preguiçosamente. Os últimos raios dele invadiam meu quarto e prosseguiam até a sala, iluminando os móveis em um tom alaranjado-brilhante. Abandonei na cama o livro que lia e levantei-me devagar, respirando a brisa controlada de um pôr-do-sol. Éramos eu e o apartamento, sozinhos. Percorri um caminho até o corredor que ligava dois cômodos, observando a cor das paredes na presença dos raios finais de sol. Enquanto retornava ao quarto, consumi cada pedaço de paz no caminho. Quando cheguei, olhei para a cama e ri das palavras que dançavam em meu livro aberto. Abri um pouco mais as janelas e escancarei minhas asas. Naquele dia, a cor delas se misturava em um vermelho-esbranquiçado. Abri os braços e abracei o horizonte na medida em que semicerrava os olhos. Meus pés se desgrudavam lentamente do chão e já reconhecia a brisa transformando-se em vento. Antes de partir, observei os pássaros cantarolando a Canção da Liberdade. Então eu voei. Fui o mais alto que podia. Sempre que voo, sinto como se fosse a primeira vez e me deixo surpreender com o quanto as pessoas parecem inofensivas vistas de cima. Meus medos desaparecem milagrosamente e o peso da existência e do meu corpo ausentam-se em meio ao ar. Quando olho para baixo, percebo que ninguém parece capaz de enxergar uma menina flutuando logo acima de suas cabeças, e me sinto feliz ao saber que não será preciso reprimir meu voo para não causar espanto aos demais. Houve um tempo em que as crianças conseguiam perceber, porém não diziam nada aos adultos, revelando um ato de respeito e admiração. Hoje, até as pequeninas passaram a estar incluídas ao surto de cegueira mundial...
Voar sempre foi o que mais me despertou interesse, mesmo com o perigo iminente de cair. Mas foi naquele sábado o dia em que voei com a alma. Fui tão longe que a vontade de retornar havia desaparecido na medida em que movimentava minhas asas. Então percebi que não era necessário voltar. Passaria o resto dos meus dias em uma viagem sem volta, voando, imaginando, criando personagens que sempre sonhei em conhecer. Voarei cada vez mais longe e mais alto. Alcançarei proporções que poucos procuraram encontrar e mergulharei nas evidências de uma realidade inexistente. Com as minhas asas, eu serei o velho lendo seu jornal, o palhaço no circo e a jovem do vestido infantil. Serei o moço viúvo, a mulher sonhadora e a criança jogando bola. Com a minha alma e as minhas asas, eu serei um pouco de tudo, mesmo que eu não seja nada.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Para Refletir

   Pense em tudo o que já fez. Pense nas suas atitudes, na maneira em que se expressa, na forma como você interpreta as pessoas. Pense naquilo que te atormenta e no medo mais obscuro que você evita. Pense em quantas vezes você se precipitou ou decidiu tarde demais. Pense nos segredos que você esconde e em todos os sorrisos que você forja. Pense nas vezes em que você se camufla e nos poucos momentos em que não precisa mentir. Pense naquilo que te provoca a maior emoção e naquilo que te envergonha. Pense nas pessoas nas quais você sabe que nunca vão te decepcionar e depois compare com as milhares que dizem que se importam, porém mentem. Pense nos passos que você dá e procure alguma semelhança entre o que você pensa e o que pronuncia. Pense em quantas pessoas você magoou involuntariamente e em quantas você acredita que não hesitariam em sofrer por você. Pense na vida como algo maior, tão grande que você mal consiga imaginar. Pense na velocidade com que as coisas mudam e no quanto seus pais estão certos quando dizem que você não sabe o que quer da vida. Pense em suas escolhas e procure aquelas que mudaram sua visão de alguma forma. Pense nas pessoas que te incentivam a andar pra frente e entenda a diferença entre elas e as que te fazem rever atitudes. Pense nas inúmeras vezes em que você regride na esperança de estar progredindo. Pense nos momentos em que você desejou ser o dono do tempo para fazê-lo passar mais rápido, ou interrompê-lo. Pense no quanto a vida parece curta em sua imensidão. Pense em tudo aquilo que você acredita que mereça dois terços da sua atenção e deva ser repensado.

Ou vá ver televisão e não pense em nada disso.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Equilíbrio (im)pessoal

   O equilíbrio. Finalmente eu consigo estar onde gostaria. Houve um tempo em que pensei que precisaria de muito mais que isso para estar feliz, mas me enganei. As situações tornam-se mais leves quando se aprende a conviver com as mesmas. Passei a ser mais tolerante e encontrei uma caixinha pequena pra guardar minha indignação em relação às pessoas. Entendi que era preciso camuflar minhas revoltas, porque querendo ou não, eu também faço parte desse teatro e sou um ser - humano como qualquer outro. Apenas vou esperar o momento em que poderei ser capaz de mudar um pouco a ordem das coisas, nem que seja pra algumas pessoas. Eu penso muito no mundo, na dificuldade de quem vive na rua, penso em toda a corrupção e falsidade que nos envolvem todos os dias. E então eu fico triste, porque sei que muita gente não se importa. 
   Porém, considerando a minha incapacidade momentânea de agir da forma na qual gostaria, decidi esconder minha caixinha por um tempo, mas jamais jogá-la fora. Enquanto isso, eu esvazio minha mente e deixo o vento circular pelo meu corpo. Até que me provem o contrário, eu me encontro leve, tranqüila e presenteei minha alma com a paz. Estou satisfeita comigo, com a minha vida, com meu espaço. Vou deixar que os dias passem devagar e me permitirei sentir meu raio de felicidade e satisfação.
   Vou deixando que a sociedade enlouqueça em sua cega inteligência. Qualquer dia eu arranjo uma solução pra salvar o mundo... E saiba que será apenas uma forma de agradecimento, porque foi ele quem me salvou.

domingo, 10 de janeiro de 2010

O Gosto do Gasto

   Começou num velório. Frederico Andrade era um bom sujeito. Pro mundo e pra qualquer curioso expectador que parasse para assistir, ele seria apenas mais um aposentado que morrera vítima de bala perdida. Mas para mim, era mais que isso. Frederico Andrade foi o meu único e melhor amigo. Observava atentamente o caixão ser devidamente enterrado pelos assistentes da funerária, para certificar-me de que desta vez, eu estava oficialmente sozinho.
   A morte de Frederico me deixou surpreso, apesar de ambos sabermos que íamos morrer em breve, ou pela velhice, ou por escorregar no banheiro em meio ao banho. É assim que a maioria dos velhos morrem: por um motivo besta, realizando atividades cotidianas.
   Frederico Andrade acordara naquela manhã às sete horas, como de costume. Vestiu sua bermuda marrom com linhas verticais em cinza e colocou uma blusa branca amarrotada. Sempre o alertei sobre os cuidados de passar e engomar suas camisas, mas ele não ligava: dizia que roupas eram apenas para cobrir o corpo e o máximo que ele fazia era levá-las à lavanderia uma vez por semana. Eu procurava não prosseguir com a discussão quando ele argumentava dessa forma, porque sei que opiniões de pessoas da nossa idade são praticamente gravadas em pedra. Frederico mal se dava ao trabalho de lavar seu rosto antes de ir à padaria. Recolheu algumas moedas e colocou no bolso da bermuda, enquanto corria os olhos pela casa a fim de encontrar suas chaves que sempre andavam perdidas. Apesar de seus longos 83 anos, a irresponsabilidade de Andrade poderia ser comparada a de um adolescente.
Demorou um tempo procurando as chaves, e quando as encontrou, abriu seu velho sorriso de canto, ressaltando as rugas e marcas de expressão que havia ganhado do tempo.
Mesmo com uma padaria que se instalara há pouco tempo ao lado de sua casa, Frederico só comprava na mais antiga, há duas esquinas dali, alegando que os padeiros de lá tinham mais experiência e o pão era mais gostoso. Pra falar a verdade, nunca vi diferença entre elas. Andou alguns passos e parou em frente à banca de revistas a fim de comprar algumas notícias matinais. Colocou seu jornal embaixo do braço para evitar a curiosidade de lê-lo antes de chegar em casa. Gostava de folheá-lo na mesa da cozinha, acompanhado de uma boa xícara de café puro. Todo dia, exatamente às oito da manhã, eu ia até a casa de Frederico para discutirmos sobre as manchetes e jogarmos uma partida de baralho.
   Enquanto vestia minhas roupas para encontrá-lo, Frederico esperava o sinal verde de pedestres para atravessar a rua. Enquanto escovava meus dentes, Frederico observava o sinal se abrir e as pessoas andando até o outro lado da calçada em passos sincronizados. Enquanto trancava a porta da minha casa, Frederico escutava sirenes, gritos e tiros. Enquanto dava meu primeiro passo em direção à rua, Frederico caía em meio ao trânsito e espalhava seu sangue pelo chão.
   Quando cheguei às proximidades da casa dele, percebi o tumultuo uma esquina acima. Mulheres chorando alto, carros parados, policiais e suas armas, ambulâncias pedindo espaço. Desafiei meus velhos ossos e corri até a porta de Frederico. Toquei a campainha incansavelmente. Ele não atendia. Resolvi forçar minha voz ao máximo e gritar pelo nome dele. Nada. Eu estava começando a me desesperar. Só havia um jeito: ir em direção ao caos. Minhas mãos tremiam enquanto corria com toda a velocidade que meu corpo cansado poderia agüentar. Atravessei a multidão e tive a impressão de que estavam me escondendo algo.
Primeiro vi os cabelos grisalhos, depois a velha blusa branca amarrotada em sangue. Não conseguia mais sentir minhas pernas. Perguntei aos paramédicos se havia chance de vida e eles balançaram a cabeça negativamente. Abaixei-me e permiti que minha lágrima caísse no peito de Frederico. Meu melhor amigo estava morto.
   Começou num velório. Desde então passei a não engomar minhas blusas e a jogar baralho sem ele. Tento discutir as manchetes dos jornais mentalmente e ando seis metros a mais para comprar na padaria em que os padeiros são mais experientes. No começo foi difícil, mas com o tempo reaprendi a lidar com o mesmo motivo pelo qual eu e Frederico Andrade nos unimos: a solidão.