Eram cinco e meia em uma tarde de sábado e o sol começava a se pôr preguiçosamente. Os últimos raios dele invadiam meu quarto e prosseguiam até a sala, iluminando os móveis em um tom alaranjado-brilhante. Abandonei na cama o livro que lia e levantei-me devagar, respirando a brisa controlada de um pôr-do-sol. Éramos eu e o apartamento, sozinhos. Percorri um caminho até o corredor que ligava dois cômodos, observando a cor das paredes na presença dos raios finais de sol. Enquanto retornava ao quarto, consumi cada pedaço de paz no caminho. Quando cheguei, olhei para a cama e ri das palavras que dançavam em meu livro aberto. Abri um pouco mais as janelas e escancarei minhas asas. Naquele dia, a cor delas se misturava em um vermelho-esbranquiçado. Abri os braços e abracei o horizonte na medida em que semicerrava os olhos. Meus pés se desgrudavam lentamente do chão e já reconhecia a brisa transformando-se em vento. Antes de partir, observei os pássaros cantarolando a Canção da Liberdade. Então eu voei. Fui o mais alto que podia. Sempre que voo, sinto como se fosse a primeira vez e me deixo surpreender com o quanto as pessoas parecem inofensivas vistas de cima. Meus medos desaparecem milagrosamente e o peso da existência e do meu corpo ausentam-se em meio ao ar. Quando olho para baixo, percebo que ninguém parece capaz de enxergar uma menina flutuando logo acima de suas cabeças, e me sinto feliz ao saber que não será preciso reprimir meu voo para não causar espanto aos demais. Houve um tempo em que as crianças conseguiam perceber, porém não diziam nada aos adultos, revelando um ato de respeito e admiração. Hoje, até as pequeninas passaram a estar incluídas ao surto de cegueira mundial...
Voar sempre foi o que mais me despertou interesse, mesmo com o perigo iminente de cair. Mas foi naquele sábado o dia em que voei com a alma. Fui tão longe que a vontade de retornar havia desaparecido na medida em que movimentava minhas asas. Então percebi que não era necessário voltar. Passaria o resto dos meus dias em uma viagem sem volta, voando, imaginando, criando personagens que sempre sonhei em conhecer. Voarei cada vez mais longe e mais alto. Alcançarei proporções que poucos procuraram encontrar e mergulharei nas evidências de uma realidade inexistente. Com as minhas asas, eu serei o velho lendo seu jornal, o palhaço no circo e a jovem do vestido infantil. Serei o moço viúvo, a mulher sonhadora e a criança jogando bola. Com a minha alma e as minhas asas, eu serei um pouco de tudo, mesmo que eu não seja nada.
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