quinta-feira, 29 de julho de 2010

Sinal de Alerta

   Foi difícil quando o vi pela primeira vez. Toda aquela fumaça impedia a minha visão. Foi preciso comprimir meus olhos numa linha apertada para enxergar o vulto que vinha em minha direção. O cabelo curto e as curvas grosseiras não me deixaram duvidar de que se tratava de um homem. Mas por que ele estaria ali? E por que caminhava até a mim? Não era nada disso que eu deveria questionar. A pergunta certa é: como ele também sobreviveu? Era muito fácil deduzir o porquê de ele estar avançando até a mim, porque ele provavelmente também é uma alma perdida, ele também não sabe o que fazer, ele também enfrentou o maior pesadelo de sua vida. O sol queimava acima de nossas cabeças e o ar seco e parado entrava com dificuldade em meus pulmões.
   A Destruição havia se concretizado em um dia cotidiano de meio de semana, logo quando pessoas em todo o mundo saiam para trabalhar, levavam suas crianças à escola ou tomavam seus cafés da manhã. A Destruição veio sem avisos prévios, apenas veio. Veio furiosa e de uma magnitude tão grande que só quem presenciou, só quem sentiu na boca o gosto da poeira e do asfalto, poderia descrever com exatidão.
   Eu era a sobrevivente, eu e este rapaz misterioso que agora pára em minha frente e me olha como se eu fosse a resposta para todas as suas perguntas.
  — Você sobreviveu. - ele afirma o óbvio - Não posso acreditar que você também está aqui. E como poderia? Por todos estes anos caminhando sozinho, minhas esperanças de que pudesse existir mais alguém eram praticamente nulas.
  — As minhas também. - respondi meio sem graça, após notar o quanto ele era bonito à sua maneira, e tinha traços marcantes, e tinha a voz decidida, e tinha... Interrompi meus pensamentos e procurei afastá-los para concentrar-me em meu primeiro diálogo após a Destruição.
  — Como você sobreviveu? - ele me perguntou aquilo que deveria ter sido perguntado por mim.
  — Eu ouvi um sinal. Um sinal de alerta. Primeiro pensei que estivesse ficando louca... essas coisas não existem. - esperei que ele me perguntasse que tipo de sinal era esse, mas ouvi o inesperado.
  — Eu também ouvi. - respondeu pausadamente, como se tivesse acabado de receber algum tipo de revelação - Acha que fomos os únicos?
Como eu poderia saber?
  — Não há como saber, a não ser que procuremos. O que sei é que o mundo é grande demais para apenas duas pessoas. - olhei em seus olhos, como se pudesse fazê-lo entender de que esta era minha única certeza no momento.
  — Você tem razão - entendeu ele - Se estamos vivos, não acredito que seja por acaso. Não acredito que o sinal tenha sido por acaso. Se estamos aqui, o justo é nos unirmos para procurar outras vidas que, provavelmente, devem estar tão perdidas quanto estávamos antes de nos encontrarmos. E, à propósito, meu nome é Marcos. - acrescentou, estendendo a mão para que eu o cumprimentasse.
  — Beatriz. - dei um sorriso de canto enquanto apertava a mão dele por mais tempo que o previsto, como se aquele gesto marcasse o início daquilo que seria nossa união, nossa equipe, o início de uma jornada pelo mundo à procura de vida humana: os Buscadores da Vida.

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