segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Perfect Strangers - Parte 1

   Eles estavam sozinhos em um quarto vazio. Encontravam-se tão entretidos em olhares que as vozes e batidas na porta vindas do lado de fora passaram a diminuir gradualmente. Uma vassoura encostada no canto direito da porta e um quadro velho e mal colocado na parede insistiam na tese de que ali seria o pior local para se apaixonar. Mas ali estavam os dois, imóveis, desafiando as leis do bom-senso e da falta de coragem.
   Víctor era um jovem esperto, agitado e levemente imaturo. Meio alto, meio baixo, as mãos pequenas e os braços largos, postura confiante e olhar perdido. Seu cabelo preto e propositalmente bagunçado contrastava em sua pele branca. Seu rosto desenhava-se em traços marcantes e bem definidos, que o permitiam mentir tranquilamente sobre a sua idade se deixasse a barba por fazer ou tirasse o brinco prata da orelha esquerda. Procurava deixar os braços nus em uma camiseta regata, a fim de expor os músculos recém-ganhados da academia. Completara 17 anos duas noites atrás e mentia ao contar aos amigos que havia conseguido oito mulheres na noite do seu aniversário. Intolerante nas horas vagas e engraçado na maior parte do tempo. Não estudava muito ou tirava notas exemplares, mas sempre conseguia passar de ano após duas ou três recuperações. Ia a festas, bebia cerveja e freqüentemente conquistava as meninas ingênuas da oitava série. Nunca se apaixonara de verdade. Até conhecer Marina.
   Ela era tímida, distraída e engraçada até certo ponto. Estatura baixa em relação às amigas, olhos pequenos e amendoados, dedos longos em mãos finas. Nem gorda e nem magra, meio chata e meio legal. Seu cabelo escuro e ondulado caía sob os ombros estreitos e seguiam um caminho até o meio de sua blusa amarela. Um cinto marrom contornava cuidadosamente seu quadril e moldava seu jeans escuro que fora comprado na véspera. Tinha aversão por garotos de blusa regata na mesma proporção em que não suportava felinos e homens de sunga branca. Não saía muito de casa e estudava com o objetivo de mudar da sua cidade o mais rápido possível. Carregava em seu bolso um coração inseguro e um plano esquematizado para o futuro.      Marina tinha 16 anos, e há uns meses saíra de um namoro precocemente longo. Desde então interessar-se por alguém estaria em última prioridade.
Até perceber a intensidade na qual os olhos de Víctor fitavam suas pupilas e a facilidade com que os mesmos atravessavam sua alma.




Continua...

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Voo Particular

   Eram cinco e meia em uma tarde de sábado e o sol começava a se pôr preguiçosamente. Os últimos raios dele invadiam meu quarto e prosseguiam até a sala, iluminando os móveis em um tom alaranjado-brilhante. Abandonei na cama o livro que lia e levantei-me devagar, respirando a brisa controlada de um pôr-do-sol. Éramos eu e o apartamento, sozinhos. Percorri um caminho até o corredor que ligava dois cômodos, observando a cor das paredes na presença dos raios finais de sol. Enquanto retornava ao quarto, consumi cada pedaço de paz no caminho. Quando cheguei, olhei para a cama e ri das palavras que dançavam em meu livro aberto. Abri um pouco mais as janelas e escancarei minhas asas. Naquele dia, a cor delas se misturava em um vermelho-esbranquiçado. Abri os braços e abracei o horizonte na medida em que semicerrava os olhos. Meus pés se desgrudavam lentamente do chão e já reconhecia a brisa transformando-se em vento. Antes de partir, observei os pássaros cantarolando a Canção da Liberdade. Então eu voei. Fui o mais alto que podia. Sempre que voo, sinto como se fosse a primeira vez e me deixo surpreender com o quanto as pessoas parecem inofensivas vistas de cima. Meus medos desaparecem milagrosamente e o peso da existência e do meu corpo ausentam-se em meio ao ar. Quando olho para baixo, percebo que ninguém parece capaz de enxergar uma menina flutuando logo acima de suas cabeças, e me sinto feliz ao saber que não será preciso reprimir meu voo para não causar espanto aos demais. Houve um tempo em que as crianças conseguiam perceber, porém não diziam nada aos adultos, revelando um ato de respeito e admiração. Hoje, até as pequeninas passaram a estar incluídas ao surto de cegueira mundial...
Voar sempre foi o que mais me despertou interesse, mesmo com o perigo iminente de cair. Mas foi naquele sábado o dia em que voei com a alma. Fui tão longe que a vontade de retornar havia desaparecido na medida em que movimentava minhas asas. Então percebi que não era necessário voltar. Passaria o resto dos meus dias em uma viagem sem volta, voando, imaginando, criando personagens que sempre sonhei em conhecer. Voarei cada vez mais longe e mais alto. Alcançarei proporções que poucos procuraram encontrar e mergulharei nas evidências de uma realidade inexistente. Com as minhas asas, eu serei o velho lendo seu jornal, o palhaço no circo e a jovem do vestido infantil. Serei o moço viúvo, a mulher sonhadora e a criança jogando bola. Com a minha alma e as minhas asas, eu serei um pouco de tudo, mesmo que eu não seja nada.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Para Refletir

   Pense em tudo o que já fez. Pense nas suas atitudes, na maneira em que se expressa, na forma como você interpreta as pessoas. Pense naquilo que te atormenta e no medo mais obscuro que você evita. Pense em quantas vezes você se precipitou ou decidiu tarde demais. Pense nos segredos que você esconde e em todos os sorrisos que você forja. Pense nas vezes em que você se camufla e nos poucos momentos em que não precisa mentir. Pense naquilo que te provoca a maior emoção e naquilo que te envergonha. Pense nas pessoas nas quais você sabe que nunca vão te decepcionar e depois compare com as milhares que dizem que se importam, porém mentem. Pense nos passos que você dá e procure alguma semelhança entre o que você pensa e o que pronuncia. Pense em quantas pessoas você magoou involuntariamente e em quantas você acredita que não hesitariam em sofrer por você. Pense na vida como algo maior, tão grande que você mal consiga imaginar. Pense na velocidade com que as coisas mudam e no quanto seus pais estão certos quando dizem que você não sabe o que quer da vida. Pense em suas escolhas e procure aquelas que mudaram sua visão de alguma forma. Pense nas pessoas que te incentivam a andar pra frente e entenda a diferença entre elas e as que te fazem rever atitudes. Pense nas inúmeras vezes em que você regride na esperança de estar progredindo. Pense nos momentos em que você desejou ser o dono do tempo para fazê-lo passar mais rápido, ou interrompê-lo. Pense no quanto a vida parece curta em sua imensidão. Pense em tudo aquilo que você acredita que mereça dois terços da sua atenção e deva ser repensado.

Ou vá ver televisão e não pense em nada disso.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Equilíbrio (im)pessoal

   O equilíbrio. Finalmente eu consigo estar onde gostaria. Houve um tempo em que pensei que precisaria de muito mais que isso para estar feliz, mas me enganei. As situações tornam-se mais leves quando se aprende a conviver com as mesmas. Passei a ser mais tolerante e encontrei uma caixinha pequena pra guardar minha indignação em relação às pessoas. Entendi que era preciso camuflar minhas revoltas, porque querendo ou não, eu também faço parte desse teatro e sou um ser - humano como qualquer outro. Apenas vou esperar o momento em que poderei ser capaz de mudar um pouco a ordem das coisas, nem que seja pra algumas pessoas. Eu penso muito no mundo, na dificuldade de quem vive na rua, penso em toda a corrupção e falsidade que nos envolvem todos os dias. E então eu fico triste, porque sei que muita gente não se importa. 
   Porém, considerando a minha incapacidade momentânea de agir da forma na qual gostaria, decidi esconder minha caixinha por um tempo, mas jamais jogá-la fora. Enquanto isso, eu esvazio minha mente e deixo o vento circular pelo meu corpo. Até que me provem o contrário, eu me encontro leve, tranqüila e presenteei minha alma com a paz. Estou satisfeita comigo, com a minha vida, com meu espaço. Vou deixar que os dias passem devagar e me permitirei sentir meu raio de felicidade e satisfação.
   Vou deixando que a sociedade enlouqueça em sua cega inteligência. Qualquer dia eu arranjo uma solução pra salvar o mundo... E saiba que será apenas uma forma de agradecimento, porque foi ele quem me salvou.