Eles estavam sozinhos em um quarto vazio. Encontravam-se tão entretidos em olhares que as vozes e batidas na porta vindas do lado de fora passaram a diminuir gradualmente. Uma vassoura encostada no canto direito da porta e um quadro velho e mal colocado na parede insistiam na tese de que ali seria o pior local para se apaixonar. Mas ali estavam os dois, imóveis, desafiando as leis do bom-senso e da falta de coragem.
Víctor era um jovem esperto, agitado e levemente imaturo. Meio alto, meio baixo, as mãos pequenas e os braços largos, postura confiante e olhar perdido. Seu cabelo preto e propositalmente bagunçado contrastava em sua pele branca. Seu rosto desenhava-se em traços marcantes e bem definidos, que o permitiam mentir tranquilamente sobre a sua idade se deixasse a barba por fazer ou tirasse o brinco prata da orelha esquerda. Procurava deixar os braços nus em uma camiseta regata, a fim de expor os músculos recém-ganhados da academia. Completara 17 anos duas noites atrás e mentia ao contar aos amigos que havia conseguido oito mulheres na noite do seu aniversário. Intolerante nas horas vagas e engraçado na maior parte do tempo. Não estudava muito ou tirava notas exemplares, mas sempre conseguia passar de ano após duas ou três recuperações. Ia a festas, bebia cerveja e freqüentemente conquistava as meninas ingênuas da oitava série. Nunca se apaixonara de verdade. Até conhecer Marina.
Ela era tímida, distraída e engraçada até certo ponto. Estatura baixa em relação às amigas, olhos pequenos e amendoados, dedos longos em mãos finas. Nem gorda e nem magra, meio chata e meio legal. Seu cabelo escuro e ondulado caía sob os ombros estreitos e seguiam um caminho até o meio de sua blusa amarela. Um cinto marrom contornava cuidadosamente seu quadril e moldava seu jeans escuro que fora comprado na véspera. Tinha aversão por garotos de blusa regata na mesma proporção em que não suportava felinos e homens de sunga branca. Não saía muito de casa e estudava com o objetivo de mudar da sua cidade o mais rápido possível. Carregava em seu bolso um coração inseguro e um plano esquematizado para o futuro. Marina tinha 16 anos, e há uns meses saíra de um namoro precocemente longo. Desde então interessar-se por alguém estaria em última prioridade.
Até perceber a intensidade na qual os olhos de Víctor fitavam suas pupilas e a facilidade com que os mesmos atravessavam sua alma.
Continua...