Começou num velório. Frederico Andrade era um bom sujeito. Pro mundo e pra qualquer curioso expectador que parasse para assistir, ele seria apenas mais um aposentado que morrera vítima de bala perdida. Mas para mim, era mais que isso. Frederico Andrade foi o meu único e melhor amigo. Observava atentamente o caixão ser devidamente enterrado pelos assistentes da funerária, para certificar-me de que desta vez, eu estava oficialmente sozinho.
A morte de Frederico me deixou surpreso, apesar de ambos sabermos que íamos morrer em breve, ou pela velhice, ou por escorregar no banheiro em meio ao banho. É assim que a maioria dos velhos morrem: por um motivo besta, realizando atividades cotidianas.
Frederico Andrade acordara naquela manhã às sete horas, como de costume. Vestiu sua bermuda marrom com linhas verticais em cinza e colocou uma blusa branca amarrotada. Sempre o alertei sobre os cuidados de passar e engomar suas camisas, mas ele não ligava: dizia que roupas eram apenas para cobrir o corpo e o máximo que ele fazia era levá-las à lavanderia uma vez por semana. Eu procurava não prosseguir com a discussão quando ele argumentava dessa forma, porque sei que opiniões de pessoas da nossa idade são praticamente gravadas em pedra. Frederico mal se dava ao trabalho de lavar seu rosto antes de ir à padaria. Recolheu algumas moedas e colocou no bolso da bermuda, enquanto corria os olhos pela casa a fim de encontrar suas chaves que sempre andavam perdidas. Apesar de seus longos 83 anos, a irresponsabilidade de Andrade poderia ser comparada a de um adolescente.
Demorou um tempo procurando as chaves, e quando as encontrou, abriu seu velho sorriso de canto, ressaltando as rugas e marcas de expressão que havia ganhado do tempo.
Mesmo com uma padaria que se instalara há pouco tempo ao lado de sua casa, Frederico só comprava na mais antiga, há duas esquinas dali, alegando que os padeiros de lá tinham mais experiência e o pão era mais gostoso. Pra falar a verdade, nunca vi diferença entre elas. Andou alguns passos e parou em frente à banca de revistas a fim de comprar algumas notícias matinais. Colocou seu jornal embaixo do braço para evitar a curiosidade de lê-lo antes de chegar em casa. Gostava de folheá-lo na mesa da cozinha, acompanhado de uma boa xícara de café puro. Todo dia, exatamente às oito da manhã, eu ia até a casa de Frederico para discutirmos sobre as manchetes e jogarmos uma partida de baralho.
Enquanto vestia minhas roupas para encontrá-lo, Frederico esperava o sinal verde de pedestres para atravessar a rua. Enquanto escovava meus dentes, Frederico observava o sinal se abrir e as pessoas andando até o outro lado da calçada em passos sincronizados. Enquanto trancava a porta da minha casa, Frederico escutava sirenes, gritos e tiros. Enquanto dava meu primeiro passo em direção à rua, Frederico caía em meio ao trânsito e espalhava seu sangue pelo chão.
Quando cheguei às proximidades da casa dele, percebi o tumultuo uma esquina acima. Mulheres chorando alto, carros parados, policiais e suas armas, ambulâncias pedindo espaço. Desafiei meus velhos ossos e corri até a porta de Frederico. Toquei a campainha incansavelmente. Ele não atendia. Resolvi forçar minha voz ao máximo e gritar pelo nome dele. Nada. Eu estava começando a me desesperar. Só havia um jeito: ir em direção ao caos. Minhas mãos tremiam enquanto corria com toda a velocidade que meu corpo cansado poderia agüentar. Atravessei a multidão e tive a impressão de que estavam me escondendo algo.
Primeiro vi os cabelos grisalhos, depois a velha blusa branca amarrotada em sangue. Não conseguia mais sentir minhas pernas. Perguntei aos paramédicos se havia chance de vida e eles balançaram a cabeça negativamente. Abaixei-me e permiti que minha lágrima caísse no peito de Frederico. Meu melhor amigo estava morto.
Começou num velório. Desde então passei a não engomar minhas blusas e a jogar baralho sem ele. Tento discutir as manchetes dos jornais mentalmente e ando seis metros a mais para comprar na padaria em que os padeiros são mais experientes. No começo foi difícil, mas com o tempo reaprendi a lidar com o mesmo motivo pelo qual eu e Frederico Andrade nos unimos: a solidão.