segunda-feira, 31 de maio de 2010

Sem Destinatário

O dia arrastava-se preguiçosamente. Ela estava só e já havia se cansado de ler o livro que há tempos não conseguia terminar. Enquanto mastigava qualquer besteira industrializada, corria os olhos em busca de algum papel. Foi quando viu um pedaço de folha semi-recortada, e antes que pudesse pensar em desenhar barcos ou assinar seu nome repetidas vezes, ela escreveu palavras que saíram apressadas:

"Não é uma questão de saber por quanto tempo continuaremos juntos. Talvez amanhã encontremos motivos para que não dê certo, ou talvez sentiremos como se tudo fosse pra sempre. Mas não dizem por aí que o pra sempre sempre acaba? E se ele sempre acaba, por que não aproveitar o tempo que nos é dado? Eu quero o tempo necessário para que você possa levar algo bom de mim, algo que você realmente tenha aprendido e que te faça ser alguém melhor do que já é. E que fiquem as conversas, os beijos, os dias felizes e os sorrisos eternizados em seus momentos. Ninguém pode nos roubar o que já vivemos, e essa é a única certeza que podemos ter. Então iremos rumo ao pra sempre, mesmo que ele possa não existir. Seguiremos juntos, enquanto estivermos juntos para seguir. Pouco importa a eternidade se o importante mesmo é o caminho que nos leva a ela. Vamos nos fazendo felizes enquanto o tempo nos permitir..."

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O Garoto que Nunca Existiu

   Ele é acostumado à sua rotina. Sai de casa raramente, quase não tem amigos, e agora está ali, sentado na penúltima fileira de carteiras da sala e olhando fixamente para o relógio pendurado na parede. A voz ritmada da professora e as risadas escandalosas dos colegas resumiam-se em ecos distantes em sua cabeça. Vez ou outra sentia uma bolinha de papel tocar suas costas, mas o único movimento imediato que realiza é debruçar-se sobre a mesa com o rosto escondido entre os braços. Ele não está presente ali, afinal. Se fosse atingido por uma faca neste momento, ele permaneceria no piloto automático. Sua vida consistia apenas em existir, ser um coadjuvante tímido na novela dos principais. Destinado ao fracasso e ponto final. Algumas pessoas nascem para morrer, era como costumava pensar quando ainda lhe sobrava ânimo para refletir sobre sua vida inútil.
   A presença da morte era tão perceptível que poderia ser consumida e percorria cada veia de seu corpo na medida em que respirava suas últimas doses de oxigênio. Hoje ele iria libertar-se, como já havia planejado. Seria às nove, logo após a refeição noturna (comeria como se fosse a única sensação de prazer que sentira em toda a sua vida), o último desejo de um rapaz reprimido.
Seus colegas só notariam uma semana depois, quando sentissem falta de alguém para atirarem algumas bolinhas de papel, mas não ficariam tristes por muito tempo: era só aquele garoto que mal sabiam o nome...O garoto que nunca existiu.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Sobre Micaretas e Afins

   É surpreendente o fato de como as letras de uma música de axé podem ser inspiradoras. Sim, verdadeiros poemas líricos. Mais revigorante que apreciar a melodia e seu ritmo contagiante é pagar trezentos reais para assistir à um espetáculo de axé repleto de pessoas bonitas e educadas (of course).
   Dia desses fui a um desses eventos, o Pub Folia. Contrariando minha natureza anti-psiricana, decidi que só poderia ter uma opinião concreta a respeito de micaretas se estivesse presente em uma delas. Poderia até ser divertido, afinal.
Logo quando cheguei e inseri-me àquele formigueiro humano, senti uma mão puxar-me pelo braço e a seguinte frase: "Gata, vem cá, me dá um beijo". O que este ser esperava que eu respondesse? "Claro, querido estranho, não te conheço, mas por mim tudo bem!" Me poupe, né? Quinze minutos de festa e era necessário andar com a mão cobrindo a boca.
Depois de escutar de um desconhecido que eu era a pessoa mais desanimada do Pub Folia, percebi que nunca havia me sentido tão deslocada em um lugar como estava naquele momento, primeiro porque não sabia dançar UMA música (apesar de que aprender a cantá-las era ridiculamente fácil), depois porque não suportava aquelas pessoas roçando umas nas outras e pulando como se pudessem alcançar a Lua.
Nunca havia visto tanto mafioso, barrerado, favelado, bêbado e bandido espremidos em um lugar só. E muita, muita gente absurdamente feia. A impressão que tive foi a de que todos aqueles cidadãos aguardaram em suas casas ansiosamente (e na seca) pelo grande dia em que pudessem extravasar. Quando digo extravasar, me refiro a descarregar energias dignas de cachorros no cio e a partir daí, beijar a boca nojenta de qualquer ser que se mova ou rasteje. Lá estava o antro dos desesperados, das pessoas que não conseguiam pegar nem resfriado em dias normais e corriqueiros.
E o que diabos são aquelas danças? Passinhos milimetricamente ensaiados, mão na cabeça, dois pulinhos pro lado, mão no joelho e uma abaixadinha... Sem contar os cantores que rebolavam e rebolavam como se estivessem entre os dez mais sexys e disputados da Forbes, e as mulheres que esgoelavam como se a qualquer momento pudessem ter um ataque epilético (¬¬').
   Vale mencionar que fui dormir com um zumbido insistente na orelha que repassava os refrões das músicas repetidas vezes e não parava nem com uma travesseirada na cabeça.
Ao final da minha aventura, pude concluir três valiosos conselhos a respeito do Barrero-Folia e eventos semelhantes: 1º- Faça o máximo para não ir a uma dessas micaretas; 2º- Se for pirraçar e insistir em ir (como eu fiz), arranje dinheiro e vá de camarote. 3º- Assim que ouvir o cantor gritar 'QUERO TODO MUNDO INDO PRA DIREITA', não vá pra direita. Nem pra esquerda. Fuja.
   E é isso aí. Bota a mão na cabeça que vai começar o rebolation, tion...