segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Transplante de Menina em crítica

    Acabo de estrear minha primeira leitura digna dessas férias. Confesso que, apesar da satisfação de ter terminado um livro em um curto espaço de tempo totalmente não compatível aos dias letivos, sinto-me minimamente desapontada. Certamente, o motivo responsável por  me interessar em ler o livro que se manteve intocável sobre uma das prateleiras do meu quarto foi seu criativo título: Transplante de Menina. No momento em que passei os olhos por tal enunciado, me permiti sugerir algumas interpretações prévias acerca do mesmo.  Inicialmente, supus que a obra se tratasse de fato de um transplante (em seu sentido denotativo) sofrido por uma menina. Depois percebi que seria no mínimo esquisito da parte de uma autora voltada para o público infanto-juvenil abordar um tema tão complexo e possivelmente dramático.  Enfim, ao me ater ao meu leigo conceito de que transplantar consiste em “retirar algo de seu lugar de origem e implantá-lo em outro local”, concluí que o “algo” a ser transplantado seria a Menina, que migraria, por sua vez, de espaço geográfico. Confirmei  minha hipótese ao ler a contracapa do livro e, finalmente, resolvi iniciar minha leitura.
    A história é baseada na própria infância da autora, Tatiana Belinky, e relata principalmente o choque cultural sofrido pela mesma ao substituir o frio incessante de Riga (maior cidade entre os países bálticos) pelo clima tropical do Brasil. A trama acontece na primeira metade do século XX, na iminência de uma Segunda Grande Guerra. A família de Tatiana resolve mudar-se da Rússia por questões políticas (escapando do nazismo ascendente ao irem para a América do Sul, provavelmente poupariam suas vidas, uma vez que se trata de uma família judia) e econômicas. A partir daí, em meio a descrições da gélida paisagem de Riga e posteriormente das riquezas naturais do Brasil, entre primeiras impressões de uma pequena imigrante e mudanças de hábito radicais, a história se desenvolve.  A síntese do livro apresenta-se de fato interessante, entretanto, por motivos explicáveis, a obra de Belinky não se encontra entre as minhas preferidas, tampouco encaixa-se na lista dos Piores Livros do Mundo de acordo com o meu “critério apuradíssimo de avaliação”. A sensação que tive ao ler Transplante de Menina pareceu-me semelhante ao ato de ler uma revista em quadrinhos: exigiu de mim pouco (ou quase nenhum) esforço intelectual.  Em outras palavras, diria que o livro, apesar da ressalva de ter me apresentado uma cidade na qual nunca havia dado sintomas de existência em minha simplória vida brasileira, serviu-me de passatempo em minhas emocionantes férias ociosas.
    A obra deixou a desejar no que se diz respeito ao contexto histórico, além de ter transformado acontecimentos relevantes, como a Revolução Constitucionalista de São Paulo, em meros detalhes. Outro aspecto que fez de mim uma leitora descontente encontra-se no fato de que não foram aprofundados ou simplesmente melhor esclarecidos os motivos reais que culminaram na imigração da família de Riga para o Brasil. Também me desapontou a estrutura da obra: não há um seguimento cronológico propriamente dito. Tem-se a sensação de que a autora procura manter a noção de tempo decorrido, entretanto acaba transformando o texto em crônicas mal conectadas umas às outras. Por fim, para encerrar o curso de críticas iniciadas por mim, sinto-me na obrigação de destacar o fato de que Transplante de Menina é um livro voltado para o público “mais infanto que juvenil” e acredito ser esse o principal motivo que levou a autora a escrever de forma descomplicada e perceptivelmente resumida.  Recomendo, portanto, o prazer de tal leitura para jovens de dez à quinze anos e também para quem deseja conhecer a turbulenta infância de Tatiana Belinky por algum motivo obscuro. Enquanto isso, terminarei uma leitura que deixei pendente em algum momento deste ano. Uma história escrita de forma invejável  e que torna a Infância de Belinky bem menos interessante: o Infância, de Graciliano Ramos.  


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Amanda

   Um dia brincávamos de casinha: dávamos vida à esmaltes, lápis-de-cor e acabávamos inventando funções diferentes para os mesmos. Boneca era apenas enfeite. Na brincadeira, você era a líder e eu sempre admirava tudo o que você fazia. Às vezes brincávamos por tanto tempo que tínhamos preguiça de guardar tudo. A moça lá de casa reclamava. Em alguns dias brincávamos de brigar. Brigar sempre nos pareceu brincadeira, mesmo que eu gritasse até mamãe dizer que não aguentava mais ouvir a minha voz. Um dia era jogar bola, no outro, brincar de balão. E entre balas, bonecas e beijos melados, nós íamos crescendo. Até que um dia, você decidiu que brincar era infantil demais para você. Foi quando vieram as chacrinhas. Lembra do quanto eu chorava para ir com você? E, enquanto te observava crescer, fui crescendo também.    
   De repente, estamos aqui. Não somos mais crianças. Temos responsabilidades, preocupações e nos encontramos em casa por poucas frações de dia. Entretanto, mesmo com as atribulações do cotidiano, tenho a convicção de que estaremos sempre do mesmo lado, compartilhando momentos entre alegrias e tristezas, entre perdas e conquistas. O tempo passa e percebo o quão raras se tornaram as pessoas que nos apoiam independentemente da circunstância. Pessoas que conhecem todos os lados de nossa personalidade e ainda assim são capazes de nos amar. Você, para mim, é exatamente isso. Você é a mãe que me repreende, a irmã que me protege e a amiga que me consola. Não há palavras que expressem a gratidão, amor e respeito que sinto por você. 
   Confesso que conviver diariamente comigo não deva ser uma tarefa fácil, afinal, como vocês costumam dizer aqui em casa: "eu dou despesa". Aceito meu cargo de "despesa" apenas pela condição de um dia poder retribuir tudo à vocês, exatamente como merecem. Mas enquanto isso não acontece, enquanto me encontro na posição de pobre da família, espero que meu carinho lhe sirva de agradecimento e que minhas sinceras palavras nunca sejam esquecidas por você. Enfim, poderia descrever agora todas as suas qualidades, dizer o quanto, entre outras coisas, você é bondosa e admirável. Mas isso todo mundo já sabe. Apenas deixo aqui o meu singelo parabéns e que ele traga muita paz, sucesso, saúde, prosperidade e alegria, afinal: você merece. 

Parabéns por ser Amiga, Amorosa, Animada, Acolhedora, Amada... simplesmente Amanda.

domingo, 26 de junho de 2011

O Presente

   Não senhor, não sou perfeita. De onde tirou essa ideia? Não sabe dos pecados que cometi, das precipitações e erros que pesam sob meus ombros? Não soube das várias pessoas que fui até encontrar a pessoa que sou? E então você me quer, vestida de mal-feitos, repleta de defeitos, o oposto do perfeito? Então você me quer. E como posso me acostumar a isso? Como posso, se quando olho em seus olhos, minha alma se emociona? Como posso me acostumar, se todos os seus atos me fascinam? Se te admiro, se me sinto extremamente feliz ao seu lado, se quero a sua alma, se amo o seu gosto? É possível me acostumar com o respeito, a gentileza, o toque, a fala e o sorriso? O tempo, a rotina... nada disso interessa. Cada pedaço de você sempre me surpreenderá,  seus carinhos sempre me provocarão arrepios,  o tom da sua voz sempre embalará minha paz. O fato é que algumas pessoas entram em nossas vidas sem aviso prévio, pessoas que nos mudam, nos marcam, nos despertam sentimentos raros e é inútil voltar atrás, é inútil buscar válvulas de escape quando há uma bem ali, dentro daqueles mesmos olhos que desordenam seus pensamentos. De agora em diante, pouco me importa os olhos que me acusam ou os indicadores que me julgam. Pouco me importa as incertezas do futuro e o medo iminente de errar. Foi preciso relutar algumas vezes, tropeçar em meus próprios pés e mergulhar em atos impensados, para entender o que sinto de verdade.
  E o que sinto é lindo, é vasto, vai durar...     

                          
=)

Ladrão de Palavras

Quem escreve abertamente sabe como as palavras tem o dom de denunciar e, mesmo que sem querer, deixam transparecer resquícios da personalidade ou estado de espírito de quem as escreve. Um bom escritor, no meu ponto de vista, é aquele que, além de dominar as palavras, deixa-se dominar por elas e prontifica-se a arriscar-se a ponto de comprometer-se. Tão fascinante quanto um bom jogo de palavras, agrada-me também aqueles textos escancarados, sem vergonha e com verdade. O texto capaz de transmitir suas ideias literalmente, desvinculando-se de entrelinhas e termos subentendidos: esfrega o real sentido da palavra sem precisar de disfarces ou palavras imponentes que o faça parecer mais elegante. Quem escreve sabe como é boa a sensação de libertar-se de pensamentos acumulados e vê-los dispostos harmoniosamente no papel, observando as palavras enfileiradas e dependentes umas das outras, como se aquela fosse a sequência perfeita de uma parte do seu próprio ser. Talvez por gostar tanto de palavras grafadas, comovo-me mais com a escrita que com a fala. Falar é facil, na maioria das vezes um ato impensado. Falar não requer sentimento. Fala-se e joga-se palavras que desaparecem com o vento e não voltam nunca mais. Escrever requer sensibilidade, tato. Exige do escritor o sentido aguçado da criatividade e da experiência. Criatividade para capturar palavras soltas e agrupá-las, dando a elas um sentido completo. Experiência no sentido de experimentar, saborear e eternizar momentos e sensações, mesmo que eles não tenham sido vividas por quem os relata. Sendo assim, escrevo. Escrevo e viajo em meus pensamentos, valido meus delírios, invento mil verdades. E, enquanto ainda sentir vontade, continuarei escrevendo com a alma e roubando a alma de outros...

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Poesia

Maria mora no mar.
Moça mulher,
misto de monstro com mel.
Mergulha no mundo, malina.
Maria tem modos de menina.

Medrosa, Maria mente:
muda o mundo à sua maneira,
misteriosamente.

Madrugada e ela é má,
manhã mansa e é menina.
Maria a muitos machuca
(no meu mundo ela é morfina).

Moça de Marte,
mimada Maria,
metade mulher,
metade menina.

Maria:
movida à momentos e
metas com melodia.
Modos e
medos
mudos em monotonia.

Malícias,
meiguices,
metáforas e
maestria.

Maria, sua maluca,
metamorfose em melhoria:
Tu me tens nas mãos.
(Sou eu nas mãos de Maria...)



 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Rejeitada

Quando provarem teus lábios gastos
e sentirem gosto de veneno,
beijarão a aversão que tenho
quando escuto qualquer palavra
que venha de ti.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Aérea

Voe em minhas asas,
se perca nas curvas
da minha estrada.
Delire pela pele,
arrepie os pelos
e estremeça.
Respire apressado e sem pressa,
não deixe que o fogo adormeça.
Pés debruçados na janela,
mentes desmembradas em torpor.
A noite tem gosto de juventude,
a vida tem cheiro e sabor.
Sinta o momento leve
e as mãos desnorteadas
em seus cabelos.
Despidos de nome e inteligência,
somos alma e redenção,
a intensidade em vida,
carros na contra mão.
Meus tribais são o caminho
e a órbita do seu mistério,
mergulhe em meu destino,
permita-se sair do sério
e viaje no exagero
do extremo
destes versos.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Pesos e Medidas

É um vazio o que eu sinto. Já tentei cobri-lo com bolo de chocolate, músicas estilo boate, açúcar com abacate. Já tentei sair pra me divertir, ouvir o sem graça e rolar de rir, ficar acordada e esquecer de dormir. Não sai. Com o vazio, minha respiração vem descompassada e sinto lágrimas quentes brotarem da minha alma, lágrimas que, de tão sem jeito, não sabem nem como correr e contornar meu rosto, morrem mudas morando em olhos marejados. Esse vazio que me deixa um pouco oca, um pouco frágil, esse vazio que me consome enquanto não passa. Ou ele acha que sou forte o bastante para aguentar ou inconsequente o suficiente pra merecer. Não seriam os dois? Posso tentar preenchê-lo com um pouco de vida, posso fazê-lo diminuir com o tic-tac do relógio, o vaivém dos dias, os corre-corres da rotina....  mas sempre sobrará um pedacinho de vazio. E é esse pedacinho que hoje me deixa um tanto vulnerável e sem lugar, esse resto de vazio que nunca vai embora, é ele que me faz querer ser um alguém melhor amanhã. E que os erros se percam em meio à acertos, e que o pecado seja perdoado e transforme-se em paz. O meu vazio será carregado em doloroso prazer e risadas intercaladas com lágrimas de emoção, porque esse espaço em branco que levo hoje é prova da falta que sinto e da saudade que bate antes mesmo da distância. É um vazio o que eu sinto. E ninguém poderia carregá-lo melhor que eu...