domingo, 28 de março de 2010

Conselho

   Disseram-me pra eu ter paciência. Disseram que eu deveria me desacelerar e pensar mais antes de agir. Disseram que minhas escolhas, independentemente de estarem certas ou erradas, sempre me trariam consequências. Disseram-me também que não é pecado não gostar de ninguém ou esquecer-se de como é que se gosta. Disseram que amor à primeira vista não existe, nem à segunda ou à terceira. Amor de verdade é aquele que só aparece depois de um tempo. Disseram-me para eu parar com essa mania inconsciente de magoar as pessoas ou fazê-las acreditar em algo que, na verdade, nunca existiu. Disseram para eu me colocar no lugar dos outros e ao mesmo tempo colocar-me em primeiro lugar. "Acorda pro mundo!", foi o que disseram. Disseram que só serei feliz quando encontrar o amor da minha vida. Mas e se eu dissesse que isso não seria o bastante pra me sentir satisfeita? Disseram que devo medir minhas palavras na frente dos outros e fazer de tudo para que não tenham uma imagem equivocada a meu respeito. E quem disse? Disseram-me que impulsividade é sinônimo de infantilidade e arrependimento é sinônimo de fraqueza. Disseram que gente responsável é gente conservadora, e que mulher direita é aquela que não sai de casa e namora quase nada. Disseram-me que a vida só começa após os dezoito. Disseram também que não deveria escrever o que penso, porque formas de pensar podem ser comprometedoras e mudam de um dia para o outro. E em meio a tanto conselho que recebo, o que é que vocês realmente querem me dizer?

segunda-feira, 22 de março de 2010

Perfect Strangers - Parte 2/Final

   As diferenças entre eles aguçavam-lhes a curiosidade e aumentavam suas expectativas. O som de batidas e gritos entusiasmados vindos da porta foram totalmente camuflados com as batidas descompassadas do coração de Marina. De repente ela esqueceu-se das vezes em que havia dito que não queria se envolver, ou que ainda não estava pronta, ou que precisava do tempo e momento adequados. Ela só queria trazê-lo para si, abraçá-lo, beijá-lo, aventurar-se num abismo de precipitações e perder completamente a pouca noção de tempo que ainda lhe restava. Porém, o medo de agir não permitiu que movesse um só membro. Então ela esperou.
   Víctor surpreendeu-se ao perceber que chegar perto de Marina poderia ser comparado a andar de carro com os olhos vendados: difícil, mas por alguma razão, instigante. Enquanto se aproximava dela, podia sentir seu sangue correr em adrenalina e suas veias pulsarem no mesmo ritmo. Ele jamais havia estado tão vivo. O irônico nisso é que sua confiança sempre o fez sentir o dono do mundo, mas, naquele quarto, ele entendeu que o seu mundo era um lugar onde ele nunca havia estado e estava bem ali, na sua frente.
As mãos entrelaçaram-se cuidadosamente, experimentando devagar a sensação de um primeiro contato. Vez ou outra suas pupilas insistiam em fitar o chão, mas agora era tarde pra qualquer demonstração de timidez. Os braços vieram depois, envolvendo os corpos em uma cápsula protetora. As respirações misturavam-se, e o hálito de menta em uma boca semi-aberta ia em direção a lábios pintados de batom. Os olhos fechavam-se enquanto esperavam um turbilhão de sensações. Então, o Beijo. O beijo que fazia o pensamento rodar. A partir dali, tudo aquilo que não fizesse parte da conexão entre os dois não lhes interessava mais. Eram Víctor e Marina. E mais ninguém. Se o mundo explodisse naquele momento, eles não seriam capazes de sentir nada além do torpor que aquele beijo lhes proporcionava.
   “Deixe que eles chamem por nós, eu já não escuto mais nada”, foi a última coisa que ela ouviu antes de perceber que havia encontrado aquele que, meio século depois, estaria junto dela com o coração debruçado na sacada de seu apartamento observando o pôr-do-sol. De mãos dadas.