quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Meu Segredo em Palavras

  Houve um tempo em que o senhor era só nosso. Aquele mesmo tempo em que eu costumava te desenhar no papel com o corpinho de palito. Lembro-me bem de como o senhor sempre se atrasava para me buscar na escola e da maneira como me colocava na cama enquanto eu fingia estar dormindo. Houve um tempo em que eu dormia e acordava com o senhor. Acordava bem cedinho, que era pra te ver arrumando antes de ir trabalhar. Lembro-me ainda das suas risadas escandalosas, do seu espirro de tremer a casa e do movimento que o senhor fazia com seu cinto quando dizia: "olha o coro!". Nunca houve coro. O que sobrou de fato foi a lembrança e a saudade que tenho dos velhos tempos. Saudade das suas musiquinhas prontas. Saudade das piadas bobas. Dos dias no clube. Dos domingos em casa. Do seu cheiro de televisão. Saudade de tudo aquilo que foi e hoje já não é mais. A vida realmente nos surpreendeu, não é verdade? A vida e seus ventos nos levaram à direções opostas. E, de repente, como se a mesa tivesse sido virada bruscamente para baixo, todo o apego transformou-se em meia distância. E quase toda a alegria converteu-se em timidez. E quase todas as piadas bobas perderam a graça. Mas o meu amor ainda é o mesmo. Nada disso me fez perder o carinho pelo senhor. O meu amor ainda é o velho amor de sempre.

Quem me dera poder consertar...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Conexão

 Eu vejo em teus olhos
 um olhar que é só meu,
 o que não destes à mais ninguém
 por só ter encontrado uma que o mereceu.

 Eu vejo em teus olhos
 o que a boca não foi capaz de confessar
 diante à um oceano de falsas verdades:
 "Estou cansado de fingir relevar"

 Eu vejo em teus olhos
 o meu amor misteriosamente refletido
 E deparo-me perguntando:
 se acaso ficasse, como teria sido?

 Eu vejo em teus olhos
 a verdade mergulhada em mentira
 a mágoa escondendo a beleza
 o amor convertido em ira

 Eu vejo eu teus olhos
 todas as razões para lhe amar
 acopladas à todas aquelas
 que impulsionam-me a não lembrar.

 Eu vejo em teus olhos
 a lembrança mal-lembrada,
 o futuro não vivido
 e a história inacabada.

 Eu vejo em teus olhos
 o desejo de me olhar:
 que eu olhasse em teus olhos
 para que pudesse também enxergar.