Ele é acostumado à sua rotina. Sai de casa raramente, quase não tem amigos, e agora está ali, sentado na penúltima fileira de carteiras da sala e olhando fixamente para o relógio pendurado na parede. A voz ritmada da professora e as risadas escandalosas dos colegas resumiam-se em ecos distantes em sua cabeça. Vez ou outra sentia uma bolinha de papel tocar suas costas, mas o único movimento imediato que realiza é debruçar-se sobre a mesa com o rosto escondido entre os braços. Ele não está presente ali, afinal. Se fosse atingido por uma faca neste momento, ele permaneceria no piloto automático. Sua vida consistia apenas em existir, ser um coadjuvante tímido na novela dos principais. Destinado ao fracasso e ponto final. Algumas pessoas nascem para morrer, era como costumava pensar quando ainda lhe sobrava ânimo para refletir sobre sua vida inútil.
A presença da morte era tão perceptível que poderia ser consumida e percorria cada veia de seu corpo na medida em que respirava suas últimas doses de oxigênio. Hoje ele iria libertar-se, como já havia planejado. Seria às nove, logo após a refeição noturna (comeria como se fosse a única sensação de prazer que sentira em toda a sua vida), o último desejo de um rapaz reprimido.
Seus colegas só notariam uma semana depois, quando sentissem falta de alguém para atirarem algumas bolinhas de papel, mas não ficariam tristes por muito tempo: era só aquele garoto que mal sabiam o nome...O garoto que nunca existiu.
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