sexta-feira, 29 de outubro de 2010

  Os invernos já não são mais os mesmos. Entre livros espalhados e pensamentos paralelos, ela leva sua xícara de chá à boca e imagina como seria se tudo fosse o contrário do que é. Lá fora a chuva fria cai forte. Os pingos atravessam a janela entreaberta e molham seu tapete preferido, que ganhara de presente há dois invernos. Ela respira profundamente enquanto observa a chuva desabar sob seus olhos, como se esperasse que a água lhe ensinasse a saída. A televisão conversa em volume mínimo e luta contra a escuridão da sala. Mais uma vez, a mulher está sozinha. Ela, a xícara, a TV, a janela, a chuva e o tapete. E uma lágrima. Sozinhos. Sua mente cansada divaga. Ela já não tem mais seus vinte e poucos anos. Não é mais a rainha do baile de 82. Encurtaram-se os longos cabelos. A mulher permanece parada. Nem o frio que apertou e o sono que chegara a faziam levantar-se do chão gelado e ir para a cama. Era aquilo: o desgaste dos anos, o cansaço da rotina, o cansaço do cansaço. Era ela: funcionária de repartição pública, mulher sem filhos, fiel com a fé perdida, pessoa sem perspectivas. Ficar inerte parecia-lhe seguro, apenas percebendo seu corpo adormecer, sentindo uma lágrima queimar-lhe a face. E não fazer nada à respeito. Talvez, estando parada,  ela espera transformar-se nos objetos que a consolam. Talvez, estando ali, o vento passaria bruscamente pela janela e levaria o pedaço de um coração que cismava em bater. Mas não. Nada disso acontece.
É a cena chata de um filme em que nada surpreende. A solidão nua e frágil em sua forma mais real.

  Os invernos já não são mais os mesmos.

(e só o que ela precisa é de alguém.)


segunda-feira, 11 de outubro de 2010

.

Finais sempre me interessaram.
Gosto de sua natureza incerta.
A quebra de expectativas,
o resumo,
a parte da história que muda todo o resto.
Finais nunca são totalmente óbvios.
Pagamos pra ver.
O final de um bom texto é sempre melhor que a introdução.
O final de um relacionamento encerra ciclos
da mesma forma que abre portas para novos começos.
Um final pode ser o divisor de águas entre aquilo que você era
e aquilo que passará a ser.
A linha tênue entre o passado e o futuro.
Finais são decisivos.
Dão encanto ao truque do mágico.
É a quebra de expectativas.
A carta na manga.
O pedaço mais gostoso que sempre fica pro final.
Felizes ou trágicos:
nos ensinam.
Talvez seja isso
o que mais me fascina nos finais.
Eles sempre ensinam.
De alguma forma.
Você nunca passa por eles
sem ganhar de presente uma conclusão.
O fim de um jogo,
finais de livros.
O fim da vida.
De nada adianta assistir à um espetáculo
e não ver o final:
é esperando por ele que alguns ainda vivem.
O final põe fim à eternidade.
É imposto e não opcional.
Atrasados ou adiantados.
Tortos,
infelizes
ou inesperados:
os finais estão aí.
E eles sempre vêm.