Os invernos já não são mais os mesmos. Entre livros espalhados e pensamentos paralelos, ela leva sua xícara de chá à boca e imagina como seria se tudo fosse o contrário do que é. Lá fora a chuva fria cai forte. Os pingos atravessam a janela entreaberta e molham seu tapete preferido, que ganhara de presente há dois invernos. Ela respira profundamente enquanto observa a chuva desabar sob seus olhos, como se esperasse que a água lhe ensinasse a saída. A televisão conversa em volume mínimo e luta contra a escuridão da sala. Mais uma vez, a mulher está sozinha. Ela, a xícara, a TV, a janela, a chuva e o tapete. E uma lágrima. Sozinhos. Sua mente cansada divaga. Ela já não tem mais seus vinte e poucos anos. Não é mais a rainha do baile de 82. Encurtaram-se os longos cabelos. A mulher permanece parada. Nem o frio que apertou e o sono que chegara a faziam levantar-se do chão gelado e ir para a cama. Era aquilo: o desgaste dos anos, o cansaço da rotina, o cansaço do cansaço. Era ela: funcionária de repartição pública, mulher sem filhos, fiel com a fé perdida, pessoa sem perspectivas. Ficar inerte parecia-lhe seguro, apenas percebendo seu corpo adormecer, sentindo uma lágrima queimar-lhe a face. E não fazer nada à respeito. Talvez, estando parada, ela espera transformar-se nos objetos que a consolam. Talvez, estando ali, o vento passaria bruscamente pela janela e levaria o pedaço de um coração que cismava em bater. Mas não. Nada disso acontece.
É a cena chata de um filme em que nada surpreende. A solidão nua e frágil em sua forma mais real.
Os invernos já não são mais os mesmos.
(e só o que ela precisa é de alguém.)

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