
Ela era comum. Não um comum desinteressante, mas com certeza não seria capaz de chamar atenção em meio a uma multidão. Na primeira vez em que a vi, ela estava do outro lado da rua, com o semblante preocupado, pensativo, como se procurasse resposta a um turbilhão de perguntas. Não pude deixar de reparar em seu jeito de caminhar, destrambelhado e alarmado, esperando o momento em que tropeçaria em uma pedra. Baixa, cabelos escuros presos a um rabo-de-cavalo e um vestido colorido, um tanto infantil para seus 16 adolescentes anos (confirmei a idade após um tempo). Não era muito magra, mas parecia que o vento a levaria em seu primeiro sopro.
Perdi-me diante a uma garota aparentemente normal, mas para mim, havia algo peculiar. Meu olhar a acompanhou atravessando a rua movimentada e caótica do centro da cidade e entrando em uma loja de chocolates. Engraçado como a maioria das jovens opta por fugir de lojas como essa, com medo de engordar alguns gramas insignificantes; mas aquela garota parecia não venerar dietas malucas. Como todo bom observador, eu queria saber mais, eu precisava saber mais.
Resolvi segui-la e entrar no armazém de doces. No início senti-me um daqueles homens obcecados, quase um psicopata. Ri por dentro imaginando-me em um filme de perseguição. Depois me convenci de que não me tornaria mal por analisar um pouco mais aquela menina.
Por fim, entrei na loja. Ela estava ali, a poucos metros de mim, procurando algumas porcarias para mastigar em casa, imaginei. Meu olhar fixou-se nela, como se estivesse vendo a cena crucial de um filme. Pra minha surpresa, ela virou-se e olhou em minha direção, percebendo que eu a encarava. Foi a primeira vez que nossos olhares se encontraram. Minha pupila cresceu e prendi a respiração por alguns segundos. Então ela desviou o olhar, voltando sua atenção aos milhares de doces à sua frente. Expirei devagar. O que eu estava fazendo?
Procurei ordenar meus pensamentos, insistindo a mim mesmo de que não deveria perder meu tempo observando uma típica garota comprar doces, fissurado em tentar adivinhar seus próximos passos. Saí da loja pertubado. Caminhei apressadamente e peguei o primeiro ônibus que parava a duas esquinas do meu apartamento. Eu precisava de um banho. Sempre quando me acontece algo que não se encaixa em meu cotidiano, penso em tomar banho. É como se a água pudesse carregar todas as minhas preocupações e jogá-las no ralo. Bobagem de um cara que não sabe enfrentar a vida.
Chegar em casa depois de um certo tempo fora me deixa feliz. O apartamento, mesmo que não seja dos melhores, é só meu. Nele eu posso ser quem sou sem rótulos e (pode parecer estranho) sem roupa.
Fui direto ao banheiro e tomei um banho. Nada aconteceu. Apesar de estar limpo agora, continuava com os mesmos pensamentos de mais cedo. Maldita água. Liguei a TV. Acabei deixando no canal de esportes, em uma partida de golfe. Sempre acompanhei os campeonatos, mas hoje estava cansado demais para me concentrar no jogo. Meus olhos pesaram como um chumbo sob meu rosto e decidi dormir ali mesmo, no sofá.
Antes de adormecer por completo, imaginei a garota do vestido infantil batendo em minha porta com toda a graciosidade que sua idade lhe permitira. A campainha tocou.
Levantei-me e sentei no sofá. Procurei afastar a idéia ridícula de uma menina desconhecida na entrada da minha casa, sem sequer saber meu endereço. Às vezes minha imaginação é surpreendente. Arrastei-me da sala mal-humorado e fui ao quarto vestir uma bermuda (não seria muito racional um homem nu atender a campainha). Antes de olhar através do olho-mágico, deduzi que fosse o carteiro, ou a vizinha do 315 reclamando de alguma goteira que saíra do meu apartamento direto para o dela. Antes fosse.
Abri a porta e deparei-me com um silêncio quase que ensurdecedor. Não havia ninguém ali, a não ser a presença do sistema automático que iluminava os corredores do prédio quando alguém estivesse neles, no meio da noite. Corri o olhar para todos os lados. Nada. Um frio na barriga apoderou-se de mim e percorreu um caminho até a garganta.
A única evidência de que alguém esteve ali era um laço lilás de cabelo no tapete de entrada do meu apartamento. Eu não poderia ter certeza de quem seria, mas pude ouvir uma voz que ecoava do meu subconsciente enquanto meu coração parecia sair pela boca: era dela.
a menina dos laços!
ResponderExcluirótimo texto, por sinal :)
Mto bom os seus textoos .. aguardando a proxima atualização ! =D
ResponderExcluirNossa vei,ajudei fzer o bagulho e oc n coloca meu nome?
ResponderExcluiregoismo ai é mato ._.'