domingo, 22 de agosto de 2010

Aquilo Que Não Era Perfeito

  Entre um copo meio vazio de whisky e uma mente parcialmente embaralhada, percebeu que ela tinha um defeito. Não se tratava de algo muito grave, porém não era tão relevante. Mas ela não seria perfeita? Perfeita de perfeições e defeitos bonitos. Os defeitos bonitos eram bonitos porque a tornavam ainda mais interessante. Mas o feio ele não conhecera até aquele dia. Defeito dele era não ter a coragem suficiente para encarar os defeitos dela e sentar-se em uma mesa de barzinho - se é que aquele lugar poderia ser chamado assim - quando poderia estar com ela, segurando sua mão e dizendo que ficaria tudo bem. Dizendo também que era apenas um defeito feio em meio à tantos outros bonitos. Um defeito feio que tinha solução: ele sabia disso e a faria acreditar na mesma coisa. Terminaria o assunto dizendo que pouco importava, que ele a queria para sempre, independente de qualquer defeito feio.
Mas não.
  Ele estava ali, sentado em uma mesa pra um, incapaz. Ele e mais uma dose de whisky que acabara de chegar. Sozinhos. Tirou o telefone do bolso e procurou em desespero o número dela. Ele sabia que se ligasse, ela não iria gostar. Já passavam das duas da manhã, ela certamente estaria dormindo. Além do mais, ela odiava vê-lo bebendo. Odiava ainda mais sua voz embolada de bebedeira. Ainda assim, ele apertou a tecla de discagem e esperou (im)pacientemente o toque repetitivo da chamada ser calado pela voz dela. O barulho parou, mas não havia voz alguma. Talvez tenha ouvido um choro baixinho, mas achou que era coisa de sua cabeça. Na verdade, ela escutava sem dizer uma palavra.

— Não importa. Você é perfeita. - a voz saiu engasgada, porém decidida.
Desligou.
 
  Sentada na cama, com os olhos cheios d'água e o celular ainda na mão, ela entendera. Sabia que ele estava bêbado. Sabia que estava tarde. Sabia que ele fora um covarde nos dias anteriores. Mas ele conseguiu fazê-la entender. Enquanto ela transbordava de emoção e seus dedos retornavam a chamada, ele desligava seu celular e levantava-se da cadeira, pensando tê-la perdido.
 
Este telefone encontra-se fora da área de cobertura ou desligado.

Encolheu-se na cama e embrulhou-se até a cabeça.
"Eu o perdi", falou baixinho para as cobertas.

  E perderam-se juntos.

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